O que vem a ser chalaça?
Antônio Houaiss define o termo como sendo “dito ou feito espirituoso, zombeteiro; escárnio, gracejo, motejo, dito ou gracejo de mau gosto; chocarrice. Elegância no andar da cavalgadura, entre os ciganos”. Pois muitos autores consideram que Francisco Gomes da Silva, conhecido como “O Chalaça”, foi o personagem mais influente do Primeiro Reinado, ainda que o Brasil contasse na época com algumas figuras consideradas exponenciais na corte, como José Bonifácio de Andrada e Silva e o Marquês de Barbacena.
José Roberto Torero escreveu a vida desse personagem da história do Brasil com irreverência e humor. Mas como fazer de uma comédia bufa senão isso? O livro – rigor histórico discutível pelo próprio estilo imposto à narrativa – é delicioso de ler. E mostra um pouco da construção da, digamos, “alma nacional”. Numa época em que o país ainda não existia – tratava-se de um Reino Unido – e a dita cultura brasileira, difusa, ia se formando à medida em que crescia a economia da ex-colônia com as iniciativas tomadas por Dom João VI (foto) e sua corte européia visando sempre, claro, seu conforto e riqueza.
Essa história nos remete a uma constatação necessária. Inevitável. O Brasil nasceu, cresceu, passou por fases distintas e crises inimagináveis, sempre à sombra de poderes diversos que se construíram/constituíram sobre instituições civis extremamente frágeis. Raramente a população foi ouvida quando decisões de Estado foram tomadas. A história da vinda da corte para o Brasil é o início disso. O Chalaça, como personagem, já morreu. Mas os chalaças sempre proliferaram no país e podem ser encontrados em praticamente todos os eventos marcantes da vida nacional. Inclusive os que são vividos hoje, quando finalmente parece que se está construindo instituições civis mais fortes. Perenes, quem sabe.
O Chalaça viveu à sombra, às custas e graças à paixão que Dom Pedro I tinha pelas mulheres. Soube se aproveitar disso, habitou a corte que se estruturava com os anos passados no Brasil e, no curto espaço do Primeiro Reinado, de apenas nove anos, tornou-se uma figura extremamente poderosa. E também odiada porque sua influência sobre o filho do rei rendia-lhe inimizades.
Há fatos na vida do Chalaça que nos remetem inevitavelmente aos dias de hoje. Em 1816, recebeu o rendoso emprego de Juiz da Balança da Casa da Moeda. Fantástico! Sensacional! Brilhante! O pilantra trabalhava conferindo o peso do ouro. É como a raposa tomando conta das galinhas…
Para que se faça idéia das benesses com que foi agraciado o incrível personagem que caiu nas graças de D. Pedro I, basta ler um resumo que dele traçou Alberto Rangel, historiador de “D. Pedro e da Marquesa de Santos”:
“A 19 de novembro de 1822, foi-lhe mandado entregar ouro para fatura da Coroa e do Cetro. Em dezembro de 1823, encontra-se oficial da Secretaria dos Negócios do Império: depois, a 4 de abril de 1825, oficial maior graduado da mesma Secretaria, com exercício no Gabinete Imperial; e a 16 de abril de 1827, um decreto mandava que ele, a seu pedido, recebesse emolumentos em “todas as Secretarias de Estado”, como se fosse Oficial efetivo delas! Intendente Geral das Cavalariças, Secretário do Gabinete Imperial, Conselheiro de Estado, Comandante da Imperial Guarda de Honra, Concessionário da Exploração do Ouro, oficial da Ordem do Cruzeiro, comendador honorário da Torre e Espada, comendador da Ordem de Cristo e de S. Leopoldo, ministro plenipotenciário, procurador e “factótum” de D. Amélia viúva, tudo isso Gomes o foi”.
Estranha e incrível figura, essa. Mas poderosa. Tanto que, ao não ter outra escolha a não ser a de mandar embora o Chalaça, Dom Pedro não permitiu que ele deixasse o Brasil enxovalhado, como um simples português desterrado. Nomeou-o Embaixador em Nápoles. O contador de piadas, o arranjador de namoradas, o gaiato, o biltre da corte portuguesa, terminava a carreira como diplomata brasileiro. Não é assim que acontece até hoje?





