evitando o cretinismo

evitando o cretinismo: teste do pezinho

A palavra idiota é muito interessante. E, como todas as palavras, tem poder. Afinal, são as coisas que determinam as palavras, ou as palavras que determinam as coisas? Não, não! Não digam que sou idiota, discutindo o que veio antes – se o ovo ou a galinha, ou que pouco importam tais elucubrações…
O príncipe Myshkin, na novela de Dostoievski, se assume idiota. Mas que idiota é este? O idiota dos gregos, que não eram considerados cidadãos e, por tanto, não podiam assumir um cargo público? Ou o idiota que não possuía nenhuma habilidade prática, era incapaz de se sustentar? Ou o idiota da psiquiatria, o doente mental, usado junto com o termo cretinismo? O cretinismo é aquela doença que se detecta com o “teste do pezinho”. Talvez de tudo um pouco – mas Myshkin na verdade, apresenta-se como o ingênuo, a pessoa que, por não ingressar no mundo competitivo, continua sendo Peter Pan, a eterna criança. Hoje, no uso popular, o termo também se confunde: chamamos de idiota quem não consegue entender alguma coisa (que para nós parece óbvia). Cretino também é usado com este sentido – e ambas as palavras, de forma pejorativa em relação ao outro. Já quando a gente chama a si próprio, a palavra suaviza-se e retoma o significado de –Ah, que ingênuo fui! E não somos todos idiotas, alguma vez na vida?

Michel Foucault

Michel Foucault

O peso de um nome

Ao taxar uma pessoa, ao classificá-la e qualificá-la, estamos reforçando sua identidade. A pessoa pode aceitar isto, ou então se rebelar. O interessante é que a acepção mais ampla de idiota está relacionada diretamente com o poder…
“O grotesco é um dos procedimentos essenciais à soberania arbitrária.Mas vocês também sabem que o grotesco é um procedimento inerente à burocracia aplicada. Que a máquina administrativa, com seus efeitos de poder incontornáveis, passa pelo funcionário medíocre, nulo, imbecil, cheio de caspa, ridículo, puído, pobre, prepotente, tudo isso foi um dos traços essenciais das grandes burocracias ocidentais, desde o século XIX.” (Os Anormais, Focault, 2001, p. 16)
Ao taxar o outro de idiota, me defendo do seu poder. Quem nunca se revoltou ao se ver nas mãos de zeladores, sub-secretários, assistentes e aspones e suas absurdas exigências? Quanto maior a ignorância, mas taxativo o poder. O Idiota revela estes mundos de embate e mesquinhez, mundos que até hoje procuram nos engolir.

O vídeo abaixo mostra o idiota sob uma perspectiva bem humorada – afinal, o (des)conhecimento é uma variável, que se altera com o tempo e as tecnologias. E quem nunca se sentiu idiota procurando o Planeta dos Textos Perdidos? Ethel Scliar Cabral