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Báh primeiro vamos a surpresa de começar a ler  Morte e Vida Severina:  eu não fazia a mínima idéia de que era um poema! Mas essa leitura que a primeira vista, dada sua curta extensão pode parecer simples, se revelou transformadora, me senti, e ainda me sinto ao mergulhar nas palavras de João Cabral de Melo Neto em uma viagem por letras estrangeiras, sim pois eu uma gaúcha de sotaque carregado e uma fala permeada pelos mais diversos regionalismos me deparei com uma outra língua portuguesa, com toda uma cadência que outrora me era desconhecida e que com Morte e Vida Severina tem me parecido familiar.

Estou tri feliz em ter esta oportunidade de conhecer esta face desconhecida da literatura e com ela perceber o quão rica é a diversidade deste imenso país, e é por isso que tenho avançado devagar neste mar de letras, pois assim posso apreciar e também compreender melhor tamanha riqueza!

estrelinhas coloridas…

Já vamos para o próximo livro, e eu aqui, empacada na página 200. É quando termina a primeira parte. Juro que fiquei curiosa: o Príncipe ganha uma herança. Será que mudará sua forma de agir e pensar? Pulei algumas páginas, para ver se localizava a resposta. Nada. Fui até o final, li um parágrafo, retrocedi. Nada. Meu eterno problema com nomes – os brasileiros, imagine os russos! – vem com força total. Em uma só página me deparo com: Vária, Nastássia Filíppovna, Kólia, Gánia, Fiódorovitch Epantchín, Nikoláievitch Míchkin, Atos, Portos, Aramis (estes mais fáceis: são os três mosqueteiros!), Bielokónskaia… Ficou tonto? Pois que achei que tinha bebido algumas doses de vodka! Pior: não tenho nenhuma desculpa para o livro ficar assim, adormecido ao meu lado. Não tive apendicite. Não tenho projetos com o Japão. Nenhum trabalho inesperado, nenhuma doença sorrateira, nenhum amor ressuscitado. Nada. Nadica.

Como classificar os livros

Os mais sabidos me ajudem, porque não lembro a referência. Cecília Meirelles? Talvez. Enfim, se não foi ela, bem poderia ter sido. Pois disse ela que cada livro tem sua hora para ser lido. E não adianta a gente querer ignorar este fato. Há livros que nos capturam no primeiro momento, porque o momento do livro e o nosso momento coincidem: tiram nosso fôlego, nosso sono, nossa fome: enquanto não chegamos até o final, não descansamos. Até já abordamos isto aqui: ler um livro pelo prazer de ler. Outros, no entanto, não se revelam ao primeiro olhar. São como paixões escondidas, esperando o momento certo para aparecer. Não adianta insistir (já fiz muito disto!): melhor que cada livro tome seu rumo, assim como nossa vida deve seguir seu rumo… O idiota, com suas 685 páginas não reveladas, ficará aqui, na prateleira, fazendo bela figura. Um dia – quem sabe? – voltarei a ele, como às vezes desejamos voltar aos antigos amores que deixamos, sem fechar as portas por completo. Agora, abro meu coração para a próxima leitura. Desculpe, Dostoiévski. Bem-vindo seja lá quem for. Ethel SC

Mesmo que minha leitura tenha avançado muito pouco nesta última semana, percebi que o título do livro nos leva a criar um estigma para a personagem, que até agora pelo menos não se verfica, pois parti do pressuposto que encontraria um completo “idiota” e que tem se mostrado apenas ingênuo,  esse suposto trocadilho linguístico foi o que me levou a este engano e também a observar como a epilepsia define o Príncipe Míchkin,  ela é a raiz na qual se sustenta todas as características desta personagem tão peculiar. Espero que Dostioévski ainda reserve muitas surpresas durante esta ótima leitura!


Com a leitura um  pouco mais   adiantada,   percebo   como são    complexas as personagens  compostas  por  Dostoiévisk   em  “O Idiota”  a começar  por  esta personalidade  tão curiosa que é  a do Príncipe  Míchkin ,  eu  enxergo nele um conjunto de  característica que  parecem ser uma  exaltação  utópica à pureza moral, surge em mim então um inquietação quanto a isso,  queria o autor nos brindar com uma personagem que fosse a encarnação da pereição?! Pois bem sabemos   que   nós   não   somos    humanamente   perfeitos,   o   que pretendia Dostoiévisk ao compor esta obra tão singular,   é a pergunta que  me proponho cada vez que pego meu exemplar, ainda não cheguei a uma resposta, mas é fato que esta  é   uma   obra magistral  e que  nos leva  a  reflexões profundas sobre a complexidade da qual somos feitos.

Casa onde foi escrito "O Idiota", em Florença

Casa onde foi escrito "O Idiota", em Florença

Como a leitura de O Idiota ainda é muito inicial e fica difícil destacar impressões mais aprofundadas, busquei um pouco mais de informações sobre o livro que eu não conhecia. Pois bem ele foi escrito no espantoso intervalo de 4 meses, em Florença entre 1867 e 1868, báh e o livro tem 681 páginas (na minha edição de 2002). É conhecido também que Dostoiévski se inspirou em Dom Quixote, de Cervantes para compor o Príncipe Míchkin e também nele próprio como o Lino já citou.

O que mais me chamou a atenção neste início de leitura foi a narrativa, que a mim parece frenética e desconcertante, a cada momento percebo que as personagens são a personificação de uma idéia e interagem em situações descontroladas sempre a um passo da tragédia. Estas são as minhas primeiras impressões e por ora é uma leitura muito interessante, vamos ver como o progresso da leitura esta estrutura complexa e interessante se mantém até o final.

Um dos temas que mais têm me chamado a atenção neste início de leitura do “Idiota” é a reiteração constante que o narrador faz em relação ao aspecto espontâneo da personalidade do príncipe Míchkin. O personagem sempre é descrito como alguém gentil, bem-educado e completamente destituído de más intenções.

Isso me lembra de um debate que tive com uma colega de pós-graduação, quando do curso desta, há cerca de dois anos. O tema era a pintura de Picasso e ela, que era arte-terapeuta de crianças, bradava decidida que “seu filho faria melhor” que o mestre cubista, dada a simplicidade – segundo ela claro -, da obra do pintor espanhol.

Jackson Pollock - "nº 1" (1949)

Jackson Pollock - "nº 1" (1949)

Outra associação que me surgiu foi com a obra do pintor norte-americano Jackson Pollock. A action painting (“pintura de ação”) de Pollock também é geralmente associada a signos como o da facilidade, como se não houvesse a menor intencionalidade crítica por detrás do conceito que o pintor criava. Como se a coisa fosse movida apenas e tão somente pela tal espontaneidade…

Nos casos de Picasso e Pollock, de fato não era a espontaneidade que norteava suas práticas artísticas. Havia, nos cubos do espanhol e nas performances pictóricas do norte-americano, intenção de pensar o mundo e de produzir olhares para além do aparente rotineiro.

Com o príncipe de Dostoiévski a coisa parece ser um pouco diferente. Pelo menos até o momento, o que me surge é um fidalgo que não faz jus ao que se vê na maioria dos casos. Faz lembrar, inclusive o Rei Lear de Shakespeare, às voltas com as contradições das filhas. Míchkin possui apreço pelo “prazer de travar conhecimento”.

É curioso como isso traz para o primeiro plano um aspecto comum no ser humano em geral. Travar conhecimento, no sentido de debater questões no dia-a-dia, parece, para muita gente, algo especialmente complicado e angustiante. Via de regra, o escape disso é a busca por guetos intelectuais que sustentem as opiniões cristalizadas, impedindo o livre trânsito da reflexão, que se encontra dentro dos espelhos da mente humana, sempre pronta a refletir nossas incompletudes e incertezas.

Uma pergunta que fica: até que ponto a postura do príncipe pode servir de objeto de reflexão sobre o papel das defesas egóicas na consciência do sujeito humano (com o perdão da redundância rítmica, afinal, não há outro sujeito)?

Um primeiro dado a ser lançado pode ser o fato de que, se há uma conexão

Pollock: espontaneidade ou intenção crítica?

Pollock: espontaneidade ou intenção crítica?

entre Picasso, Pollock e o príncipe de Dostoiévski, esta reside no desejo (que é de fato diferente do “prazer”, como parece postular o personagem Míchkin) pelo confrontamento de ideias. E acho especialmente importante, neste contexto, a palavra “travar”, que o personagem usa, e que se aproxima do que entendo ser a lógica mesma do que se chama de “diálogo”, a despeito do positivismo do termo. Sem combate, não há debate, nem reflexão. É o que se pode apreender nas entrelinhas dos sofistas gregos, por exemplo, mesmo e apesar de suas intenções escusas…

Marcelo Henrique Marques de Souza

qca5ywbggca1qzkbecanqoh88cano6v3tcadr1vftcartw9brcalksc60castekjzcagxsmeyca1bsu99ca8k6xoxcay24fh5caucxtrjca90yl6jcabe5zj7caz6ea79ca6m4k26caz2r4js É muito difícil comparar grandes autores. O que os separa são fronteiras muito tênues, onde se fixam os limites da genialidade nas atividades humanas. Fiódor Dostoiévski encontrou sua genialidade escrevendo sobre o gênero humano. Em uma época complicada da história russa, viajando e se fixando em Florença, ele criou o príncipe Lev Nikoláevitch Míchkin, O Idiota. Com ele, construiu um de seus grandes e complexos romances.
Não pensem que votei nesse livro por já tê-lo lido e que estou escrevendo esse primeiro post sobre o assunto depois de devorar em tempo recorde suas 684 páginas (edição que consegui, em um site de sebos). Não. Ainda estou no início. Mas de início percebe-se com que facilidade o grande escritor russo desenvolve uma trama e vai aos poucos apresentando seus personagens.
Aliás, esse é o grande segredo dos escritores: como apresentar seus personagens ao longo do desenvolvimento dos textos. Não há uma fórmula única, apenas um estilo consagrado. Mas se o autor não conseguir fazer isso bem, o texto perde qualidade. Se for romance, muito de sua força, de sua capacidade de entreter, de prender a atenção do leitor, vai se perder. E é possível que o volume seja deixado de lado. E o autor também.
Prometo falar muito do tema daqui para a frente. Mas não vou cometer o sacrilégio pessoal de tentar invadir a psicologia ou a psicanálise, avaliando a psique dos personagens. Essas duas ciências não são minha área, definitivamente. Domingo último, conversei durante uns 30 minutos, ao lado de uma garrafa de vinho, com um amigo que já leu essa obra de Dostoiévski. Não queria enviar esse post no escuro. E ele me forneceu uma espécie de quadro, que pude acrescentar às poucas páginas já lidas, para ter alguma base hoje. E conheço bastante esse gênio russo. De “Recordações da Casa dos Mortos” (recomendo a qualquer pessoa que goste de um grande livro, para ter na cabeceira), “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”.
Portanto, vamos dar tempo ao tempo. Permitir que O Idiota se mostre inteiro e que o romance cresça à medida em que as páginas se passem. Isso vai ser inevitável. E, definitivamente, muito agradável.

"O Pesadelo" - Henry Fuseli

"O Pesadelo" - Henry Fuseli

Quando os chamados heróis de Hollywood matam o bandido, salvam a humanidade e beijam a donzela no final do filme, o expectador sai do cinema portando uma interessante duplicidade. Por um lado, está aliviado, por saber que a estrutura “libertária” na qual acredita “funciona”, ou “se sustenta”. Porém, na medida em que esse tipo de construção, a do herói norte-americano, se baseia em modelos referendados pela demanda do próprio expectador (o ‘protetor’ de sua ‘liberdade’ e o ícone a ser seguido), o que resulta daí acaba sendo um misto de confiança na liberdade irrestrita aliada a um ressentimento autofágico, que se perpetua por conta da impossibilidade óbvia de se atingir o modelo ideal que o filme representa. Na crista desta onda, fazem sucesso figuras como Bruce Willys, Silvester Stallone, Denzel Washington e cia ltda.

Os gregos tinham uma visão um pouco diferente. Para eles, a arte precisava

"O Massacre dos Inocentes" - Peter Paul Rubens

"O Massacre dos Inocentes" - Peter Paul Rubens

figurar, para os indivíduos, o que entendiam por lógica da ‘catarse’. O herói grego passava do poder e da ilusão para o destino, no intuito de descarregar um estado de purificação na alma do expectador. Segundo o filósofo Aristóteles, em seu trabalho intitulado “Poética”, a ‘catarse’ se daria através de um processo de purificação das almas, por meio da forte emoção provocada pelo drama.

Esta é a estrutura básica da ‘tragédia’, tema que pretendo utilizar como reflexão neste momento de escolher livros para o Clube. É com o surgimento da tragédia grega que aparece, também, a ideia de ‘humanidade’, ou seja, de que o ser humano pertence a um universo maior do que o da pólis.

A arte mercadológica do mundo atual atua de forma oposta a do drama clássico. Justamente porque a “purificação” do sujeito contemporâneo se dá às avessas, ou seja, num processo que cria e recria inimigos externos ao indivíduo, que são sempre derrotados pelos modelos que a ele-indivíduo são dirigidos. Não há, em suma, reforço de nada parecido como uma ideia

Estudo sobre o Corpo Humano - Francis Bacon (1949)

"Estudo sobre o Corpo Humano" - Francis Bacon (1949)

efetiva de “humanidade”.

Qualquer um dos livros escolhidos traz enredos trágicos, que permitem que pensemos na estrutura simbólica da tragédia e no tema dos valores que impregnam as ressonâncias das obras de arte no comportamento dos sujeitos afetados por elas, de um jeito ou de outro.

As obras, por uma interessante coincidência, seguem uma cronologia do trágico, na história da arte ocidental. “Édipo Rei”, de Sófocles, representa a época grega; “Hamlet”, de Shakespeare, a época do Renascimento, com seu cenário de dúvidas e revisões ideológicas oriundas dos excessos criminosos da Idade Média; e “O idiota”, do escritor Dostoievski, figura o imaginário moderno, a partir da ótica de um discurso historicamente marginal, produzido por um russo (o que dá mais uma nuance trágica ao texto).

Votem a vontade, porque aqui a urna é eletrônica, mas não há fraude.

Édipo Rei, de Sófocles

Édipo Rei, de Sófocles

Hamlet, de William Shakespeare

Hamlet, de William Shakespeare

O Idiota, de Fiodor Dostoievski

O Idiota, de Fiodor Dostoievski

Marcelo Henrique Marques de Souza

É muito provável que o pensamento de Karl Marx não atingisse a dimensão que atingiu, se a União Soviética não houvesse acontecido enquanto experiência histórica. O povo russo tem uma importância que é quase sempre negligenciada pelos ocidentais acostumados a criar seus roteiros intelectuais pelo jornalismo e pelo cinema de matriz hollywoodiana. O caso da Segunda Guerra Mundial é chave para entender isso. Quando os norte-americanos lançaram as duas bombas atômicas no Japão, este país já havia se rendido. E, apesar da exaustiva temática dos judeus no cinema dos Estados Unidos, devemos a vitória aliada contra os nazistas muito mais à resistência russa do que a qualquer outra coisa. Se dependesse dos judeus, Hitler teria êxito, disso não há a menor dúvida. Seis milhões de judeus foram mortos no chamado Holocausto. O número de mortos russos chega a impressionantes 20 milhões… E foi ali que Hitler se deu realmente mal…

Depois de Lênin, não se pode dizer que a União Soviética tenha sido uma experiência efetivamente socialista. Stalin e seus sucessores aplicaram, por ali, uma ditadura semelhante a dos czares anteriores à revolução. Dizer, portanto, que a URSS era comunista ou socialista é desconhecer completamente o texto do teórico alemão. Os ideais de Lênin eram socialistas. Mas não os de Stalin.

Entretanto, a experiência russa construía um símbolo que se ampliava para além do marxismo. A URSS refletia a possibilidade de um posicionamento de oposição frontal aos ditames norte-americanos, na medida em que Moscou praticava um duelo militar e ideológico de igual para igual com os yankees. Depois dos acordos pós-segunda guerra, não havia mais muita saída para os russos. A chamada Guerra Fria era inevitável.

Quem se der ao trabalho de estudar como se formaram as sociedades latino-

Mapa de Cuba

Mapa de Cuba

americanas nesse período do pós-guerra talvez consiga desmistificar a ideia corrente de que os Estados Unidos praticam um tipo de sociedade igualitária e libertária. Diversos exemplos mostram o quanto os norte-americanos contribuíram com derramamento de sangue por aqui, para implantar suas diretrizes econômicas autoritárias e pautadas pelo controle ideológico das nações “menos desenvolvidas”. A Nicarágua e a história de Sandino e do movimento sandinista; o Chile e a experiência de Salvador Allende (que se deu mal justamente por querer aliar socialismo e democracia); a Argentina; o golpe de 64 no Brasil, que derrubou um governo legítimo, para reinstaurar absurdos como a remessa de lucros sem controle para o exterior, lógica que havia sido combatida por Jango em seu governo; e a Revolução Cubana, que buscava alçar o lugar à condição de país soberano, livrando-o da dominação e exploração dos Estados Unidos, que controlavam quase todas as partes mais importantes da economia do pequeno território.

Fidel Castro e Hugo Chavez

Fidel Castro e Hugo Chavez

Quando se chama Fidel Castro de ditador, ignora-se o fato de que não há sequer partidos de esquerda nos EUA. O que Fidel, Che e os outros revolucionários atacavam era mais que a dominação econômica de Cuba; o alvo era, principalmente, essa ideia de que o modelo de sociedade dos EUA era libertário e “democrático”. Mais que isso talvez: Fidel, com a Revolução Cubana, nos legou um exemplo que coloca em xeque a própria veracidade e pureza dessa palavra tão sutilmente difundida: democracia. A crença da maioria geralmente se pauta por um intrincado sistema de produção fajuta de informações, que existe justamente porque há, no ser humano, resistência ao complexo e uma exaltação do simplório como núcleo de uma ideologia da felicidade que só faz alienar e afastar as pessoas comuns do convívio com os problemas políticos.

E aí entra a ideia de “identificação”, no que propõe a psicanálise. Não existe no ser humano nada que seja livre. Desde sua formação sexual até a maneira como conduz sua vida, tudo passa por relações entre vontades e ideias, no sujeito. As vontades não são fenômenos autônomos, mas impulsionados por desejos que emergem do aleatório de nossas (des)construções mentais. E as ideias são articulações entre o que queremos e o que o mundo nos apresenta como possibilidade. Esse tipo de itinerário dá a medida da coisa: o que nos forma são processos de identificação, ou seja, de reproduções , no indivíduo, de ideias que surgem do discurso (que está “fora dele”, no mundo). Se o discurso apela para mitos como o do individualismo e o da liberdade, é exatamente isso que condiciona o imaginário das pessoas. Se a proposta é uma lógica voltada para o confronto de ideias e para o que entendemos como “social”, o barato é outro.

Vivemos um mundo, hoje, que acredita piamente na tal liberdade de mercado. Apesar disso, Marx, os Russos e Fidel deixaram um legado intelectual ímpar, que remete a pensar nas incontáveis mazelas e mentiras do capitalismo. O poder continua nas mãos de poucos. E a única liberdade que existe de fato é a de aderir, sem questionamentos, ao be-a-bá do shopping-center. Isso desemboca no que temos visto, constantemente: violência, sexualidade juvenil exacerbada, uma burrice galopante e um sistema completamente vulnerável, pautado por símbolos fraquíssimos, no que diz respeito à construção de sociabilidade, como o crédito, o consumismo, a saúde pautada pela venda de remédios e a educação entregue às baratas, sem o menor investimento em qualidade.

Darcy Ribeiro, que chegou a ser Ministro da Educação de Salvador Allende

Não deixe de ler

Não deixe de ler

no Chile, já disse, certa vez, que o brasileiro é, simbolicamente, um “ninguém”. Filho de uma mãe vendida (a índia) com um pai ladrão (o português), o brasileiro não tem com quem criar “identificação” efetiva. Dá no tal complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues apontou com propriedade. O que vem de fora acaba sendo sempre melhor. E é por isso que Oswald de Andrade, um de nossos grandes poetas, propunha algo como uma “antropofagia cultural” para o brasileiro. Golfar nossa submissão ideológica, para tentar pensar-se como povo para além das cartilhas estrangeiras. Mais ou menos como aconteceu com Cuba. Se alguém acha o sistema cubano complicado, que dê uma pesquisada na história do Haiti, vizinho de Cuba e muito semelhante a ela, na época da Revolução de Che. Hoje, o Haiti é um dos países mais pobres do mundo, completamente entregue, depois de servir como quintal de exploração dos norte-americanos por décadas. Não fosse Fidel e os outros, Cuba teria seguido, inevitavelmente, o mesmo destino.

Marcelo Henrique Marques de Souza

kcadezxtucabbxupvcaqd91q6cas06ihtca9dbvwkcaeh3eqpca86g56ycax0g035ca224lz5cam26ohocaaypu2ncal59va5cahpu1nuca83td7dcaexmzt0ca22152gcaf90h45cacu8ibj1Assim eu me arrastava até que o camarada Lênin e o camarada Trotsky fizeram mudar de rumo a minha enfurecida baioneta, indicando outros intestinos e vísceras mais predestinados e merecedores de atenção

Essas irmãs são de caridade diabólica! Para tirar nossas roupas, tentaram mais de uma vez nos adormecer com soporíferos…

Nikita Balmachev foi acusado de traição. Quebrou um hospital juntamente com alguns outros e os dois trechos acima são de sua defesa ao juiz Burdenko, tentando fugir aos que o acusaram. Um dos contos magistrais de “A Cavalaria Vermelha”, livro que estamos lendo agora. As justificativas de Balmachev podem ser consideradas engraçadas. São mais: o retrato da sociedade em que ele vivia, aliada a um momento de profunda instabilidade política e social. Na Guerra Civil Soviética, a distância entre o heroísmo e a traição era ínfima. Podia ser um passo. Uma palavra mal dita. Um gesto. Um tiro errado. Um amigo de infância. Um amor de juventude. Qualquer coisa.
0ca0fblecca5y53nacat9wt2hcaxls2j7cag2ctecca1owpevca8o15qicads3zajcaldby21caoma2z1ca8rzdibcau7fs39cazxb0upca7yu3xocarhumzicadwtcyicavi93ydcaiydyucImaginem o seguinte: em 1917 um tzar é deposto; um regime político, jogado ao chão e um sistema político/econômico assume o poder num mundo que lhe é totalmente hostil. E isso em meio a uma guerra mundial sangrenta, com a Europa coberta por armamento militar e um dos lados já prestes a se render. O que fazer? Aproveitar a ocasião para invadir aquele país ali ao lado, que de repente derruba e aprisiona um rei, pretendendo mudar a ordem econômica mundial. Invertê-la. Subvertê-la. Exatamente isso foi feito.
Então, tão logo os soviéticos assumiram o poder, se depararam com o fato de que diversas tropas estrangeiras estavam tomando de assalto seu país. Isso alimentou a contra-revolução. Havia uma luta em dois lados, com um deles sendo o das tropas estrangeiras estocando o recém nascido estado soviético e, de outro, os “russos brancos” tentando devolver o trono ao tzar. Ou o tzar ao trono, o que, no fundo, quer dizer exatamente a mesma coisa.
Nicolau II e todos os seus familiares diretos morreram por causa e em consequência disso, na arena real. Balmachev, na arena ficcional, teve que se defender com seus argumentos toscos – e até mesmo engraçados – também pelo mesmo motivo. As fronteiras eram muito fluídas…
Sobre tudo isso não fala apenas Babel nesse livro que estamos considerando. Fala também Vladimir Maiakovski, o grande poeta da revolução soviética e que, em dado momento, “se suicidaram-no” ao final do conflito. Sobre ele e para reflexão, deixo o fantástico texto abaixo:

Na primeira noite eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

E para terminar, e porque o que motivou 1918/1922, de certa forma retornou em 1939/1945, um último texto antes de meu bom dia a todos:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar…
Martin Niemöller, 1933 ,símbolo da resistência aos nazistas

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