Rosa de Luxemburgo

Rosa de Luxemburgo

Falamos da violência, falamos do ódio, da raiva e dos desatinos humanos, esparramados nos campos de batalha, mesmo quando não são campos e sim cidadelas respingadas por países alheios. Mas que dizer dos sonhos e ds esperanças? Pois este post vai para minha vó, que viveu e morreu comunista. Seu nome verdadeiro não sei. Sei que se auto denominou Rosa, em homenagem à Rosa de Luxemburgo. Sua história fui re-construindo pouco a pouco, com o passar do tempo. Quando a vi pela última vez, fizera 90 anos. Morava no Uruguai, já há décadas. Minha vó era judia polonesa. Fugiu para Alemanha (!) e de lá para o Brasil. Casou, teve duas filhas. Fugiu de novo, casou de novo. Desta vez no Uruguai.

Paixões comunistas

Pois assim, perseguida, o Partido Comunista – lá nos idos de 1930 – mandou minha Vó Rosa refugiar-se no Uruguai. Deixou aqui as filhas, pequenas, e o marido. E se foi. Ao cruzar a fronteira, um companheiro a esperaria, para levá-la a lugar salvo, de bom abrigo. Foi cruzar a fronteira e cruzar olhares. Apaixonou-se. Vovô foi atrás, implorou e pediu. Nada. Rosa lá ficou, pelas bandas uruguaias. Lembro de alguns verões, passados em Punta del Este. Meu avô emprestado, garçom e chefe de cozinha, fazia pêssegos flambados, que me enchiam de admiração – o prato flamejante, o fogo vivo de quem ainda pregava o comunismo.

capaDe pé, famélicos do mundo

Chegamos à pequena casa. Vovó pequenina, encurvada, fala que se arrasta. Olha para a bisneta, Bianca, que do alto de seus 10 anos, exibe orgulhosa na lapela um pin com a foice e o martelo. Vovó diz, orgulhosa: – Esta é das minhas! Não resisto, e pergunto: -Mas vovó, o Muro de Berlim caiu, a União Soviética não existe mais… O comunismo desapareceu! Vovó me leva até seu quarto, aponta para a cabeceira da cama. Em cima, na parede nua, dependurado um único quadro: um retrato de Marx. E sorri, confiante: – O comunismo pode acabar, o ideal jamais! Minha avó Rosa morreu, ainda acreditando no seu sonho, ainda acreditando na igualdade dos homens e em um mundo melhor. Com exércitos de todas as cores – vermelhas, amarelas, verdes, azuis – cantando a Internacional e clamando: – Non passarán! Sem cavalos pisoteados, sem gargantas cortadas, sem sangue correndo. Apenas um retrato de Marx, que posso até ver sorrindo, na cabeceira de minha avó Rosa. E, ao longe, meu pai cantando o Hino da Internacional: De pé, famélicos do mundo! Ethel Scliar Cabral