mulher-14Sempre me surpreende que as revoluções surgem para sacudir rotinas, hábitos, tudo que está parado e criando pó. Podem ser revouções sangrentas, revoluções pacíficas, revoluções com música, com palavras ou tiros. Mas sempre revoluções. Aliás, tem uma expresão ótima, um ditado árabe: “Gente é como tapete: tem que sacudir de vez em quando.”. Depois ue sacode, no entanto, parece que tudo volta a congelar no tempo… A revolução russa deu no que deu. Cuba, apesar dos avanços em várias areas – e mesmo que clamem contra o embargo – está congelada no tempo. A India, conseguiu sua independência com Gandhi – e seus bens, parcos bens, já foram a leilão.

woodstock_csg022Hippies consumistas

Até os hippies acabaram sendo engolidos pelo sistema e viraram fantasia de carnaval, baile nostálgico com ingressos vendidos a preços altos, com direito a foto em caras e tudo mais. Será este o fim de toda e qualquer revolução? Pois no livro A Cavalaria Vermelha, Babel fala dos hassidim (ou chassidim), como judeus ortodoxos, reacionários, antiquados… Um bom paralelo para a revolução que se instaura, em busca do saber científico, em buca da liberdade e do fim do ópio do povo: a religião – ao lado de outros, é claro: carnaval, futebol e televisão…

MIDEAST-ISRAEL-RELIGION-PURIMOs Hassidim

Mas ora, quem diria, os hassidim também foram revolucionários! Sim, sim, sim. Esta é uma das muitas linhas do judaísmo. Surgiu por volta de 1700, fundada por Israel Baal Shem. E porque este líder funda uma nova seita? Por um motivo muito simples: a religião, antes um conjunto de preceitos éticos,lógicos e místicos, havia se distanciado do povo. Tornara-se um reduto de intelectuais, que analisavam tudo do ponto de vista legalista, com uma linguagem intrincada e incompreensível, perdendo tempo em discutir questões mínimas por horas fio (chama-se pil pul: discusses em torno de insignificâncias). Soma-se a isto a opressão e as perseguições que o povo sofria: pronto, eis o cenário para uma revolução. Vem Israel Baal Shem e prega o retorno do judaismo às suas origins, com uma linguagem que qualquer um poderia entender, viajando de cidade em cidade, dizendo que tudo era harmonia, que todos estavam em contato direto com Deus, não importa se sabiam rezar ou não, se eram letrados ou não. Pronto: ameaçou o status quo.

vestibular20i1Ontem, como hoje

Um texto do século XVII, de Desó Delmedigo,medico e rabino italiano, que estudou astronomia com Galilei, mostra o clima que propiciou a expansão desta revolução religiosa na Polônia e na Lituania. Esqueçam que é do século XVII…
“Uma escuridão profunda cobre a terra, e a ignorâcia é terrível. Apesar do país estar cheio de academias e casas de estudo, até mesmo o estudo (…) está muito decadente. Isso acontece porque todos aqueles milhares de pessoas que enchem as academias (…) só têm em mente coisas mundanas e são impulsionados por motivações materialísticas: meios de vida, honra, vaidade etc. Só estão interessados em carreiras… Toda essa vilania devorou tudo. O que há de mais alto e mais importante tornou-se coisa secundária… Não tem qualquer laivo de conhecimento científico. Detestam qualquer sabedoria.(…).”1 Século XVII? Sinto-me em casa. E as revoluções, vermelhas, brancas, pretas, de todas as corações, se congelam a minha frente. Ethel Scliar

1. Sustitui, no texto, as expresões hebraicas: Ieshivot = academia; Batei Ha-Midrash = Casa de Estudo. O texto está na Enciclopedia Judaica, vl. 5, p. 150. Ed. Koogan,Rio, s/d.