Um dos pontos de destaque na maioria dos contos que compõem A Cavalaria Vermelha é, sem dúvida, a violência. A sua presença é, de certa forma, naturalizada pela brutalidade da guerra, da luta que se estabelece entre russos e poloneses e que se reproduz no clima que marca a relação das pessoas que participam da luta, seja nas batalhas físicas ou nas analogias traçadas ao longo dos textos construídos por Babel.

“(…)Já não há abelhas em Volin. Nós profanamos suas colméias, destruindo-as com enxofre e pólvora”, decreta Babel logo no início de “O caminho para Brodi”, completando que “a crônica de nossas atrocidades rotineiras” o oprime sem trégua, como uma doença do coração. O autor pode não gostar dela, mas a violência está presente, seja no trato com as abelhas, profanadas, seja no trato com as pessoas, que são mortas, sejam nas batalhas, quase sempre sangrentas. E se as abelhas podem ser profanadas, o que dizer das pessoas?

Em “A morte de Dulgochov” não são as abelhas, mas as pessoas, incluindo os combatentes, que sofrem nas batalhas. E o que dia Babel como exemplo? Ao relatar a situação de um combatente, assinala: “(…) ergueu lentamente a camisa. Tinha o ventre destroçado, as entranhas pendiam-lhe sobre os joelhos, as batidas do coração eram visíveis”. Imagine a cena e a brutalidade nela contida. Já em “O comandante da segunda brigada” o relato se prende novamente ao combate, mas também à forma de agir de um novo comandante que, intéprido, enfrenta o inimigo. Dele, afirma: “Procura a glória, e espero que a alcance”. Neste caso, que tipo de glória?

A violência se faz presente também no cotidiano, fora da guerra, como na história de Matvei Pavlichenko, ao destacar em uma das passagens o espacamento do patrão, concluindo: “E foi aí que conheci completamente o que é a vida”, com a brutalidade que marca as relações no campo, envolvendo patrões e empregados. Ou no comportamento errático de um cossaco, em Prischepa, que foi de vizinho em vizinho deixando um rastro de sangue. No final, “apunhalou mulheres velhas, pendurou cães sobre poços e emporcalhou ícones com excrementos de animais”. Uma descrição nada poética.

Estes são apenas alguns exemplos do recheio de violência que os textos curtos de Babel traz. Parece que ele esmerou-se em relatar não só o que viu, no que tomou parte, mas decidiu registrar, também, as histórias paralelas à guerra, envolvendo personagens que dela participaram junto com ele. Nos dois casos, a tônica é a violência, causada não só pela impieadade das lutas feitas por soldados amedrontados e mal nutridos, mas provocada pelo próprio relacionamento entre os vários personagens, seja em função de uma cadeia de comando, seja marcada pelo companheirismo e, em alguns momentos, pela amizade.

O que se conclui? No meu entender, que Babel quis, de fato, ser realista em relação ao que participou, colocando nos seus textos todos os horrores da guerra. Com isso talvez tenha querido chamar a atenção para a sua brutalidade e para o despropósito de algumas ações. O seu relato, no final, foi tão bem feito que o livro resistiu ao tempo. E ainda hoje pode ser lido, trazendo-nos um relance do que é uma guerra, que só é asséptica na televisão.