É muito provável que o pensamento de Karl Marx não atingisse a dimensão que atingiu, se a União Soviética não houvesse acontecido enquanto experiência histórica. O povo russo tem uma importância que é quase sempre negligenciada pelos ocidentais acostumados a criar seus roteiros intelectuais pelo jornalismo e pelo cinema de matriz hollywoodiana. O caso da Segunda Guerra Mundial é chave para entender isso. Quando os norte-americanos lançaram as duas bombas atômicas no Japão, este país já havia se rendido. E, apesar da exaustiva temática dos judeus no cinema dos Estados Unidos, devemos a vitória aliada contra os nazistas muito mais à resistência russa do que a qualquer outra coisa. Se dependesse dos judeus, Hitler teria êxito, disso não há a menor dúvida. Seis milhões de judeus foram mortos no chamado Holocausto. O número de mortos russos chega a impressionantes 20 milhões… E foi ali que Hitler se deu realmente mal…

Depois de Lênin, não se pode dizer que a União Soviética tenha sido uma experiência efetivamente socialista. Stalin e seus sucessores aplicaram, por ali, uma ditadura semelhante a dos czares anteriores à revolução. Dizer, portanto, que a URSS era comunista ou socialista é desconhecer completamente o texto do teórico alemão. Os ideais de Lênin eram socialistas. Mas não os de Stalin.

Entretanto, a experiência russa construía um símbolo que se ampliava para além do marxismo. A URSS refletia a possibilidade de um posicionamento de oposição frontal aos ditames norte-americanos, na medida em que Moscou praticava um duelo militar e ideológico de igual para igual com os yankees. Depois dos acordos pós-segunda guerra, não havia mais muita saída para os russos. A chamada Guerra Fria era inevitável.

Quem se der ao trabalho de estudar como se formaram as sociedades latino-

Mapa de Cuba

Mapa de Cuba

americanas nesse período do pós-guerra talvez consiga desmistificar a ideia corrente de que os Estados Unidos praticam um tipo de sociedade igualitária e libertária. Diversos exemplos mostram o quanto os norte-americanos contribuíram com derramamento de sangue por aqui, para implantar suas diretrizes econômicas autoritárias e pautadas pelo controle ideológico das nações “menos desenvolvidas”. A Nicarágua e a história de Sandino e do movimento sandinista; o Chile e a experiência de Salvador Allende (que se deu mal justamente por querer aliar socialismo e democracia); a Argentina; o golpe de 64 no Brasil, que derrubou um governo legítimo, para reinstaurar absurdos como a remessa de lucros sem controle para o exterior, lógica que havia sido combatida por Jango em seu governo; e a Revolução Cubana, que buscava alçar o lugar à condição de país soberano, livrando-o da dominação e exploração dos Estados Unidos, que controlavam quase todas as partes mais importantes da economia do pequeno território.

Fidel Castro e Hugo Chavez

Fidel Castro e Hugo Chavez

Quando se chama Fidel Castro de ditador, ignora-se o fato de que não há sequer partidos de esquerda nos EUA. O que Fidel, Che e os outros revolucionários atacavam era mais que a dominação econômica de Cuba; o alvo era, principalmente, essa ideia de que o modelo de sociedade dos EUA era libertário e “democrático”. Mais que isso talvez: Fidel, com a Revolução Cubana, nos legou um exemplo que coloca em xeque a própria veracidade e pureza dessa palavra tão sutilmente difundida: democracia. A crença da maioria geralmente se pauta por um intrincado sistema de produção fajuta de informações, que existe justamente porque há, no ser humano, resistência ao complexo e uma exaltação do simplório como núcleo de uma ideologia da felicidade que só faz alienar e afastar as pessoas comuns do convívio com os problemas políticos.

E aí entra a ideia de “identificação”, no que propõe a psicanálise. Não existe no ser humano nada que seja livre. Desde sua formação sexual até a maneira como conduz sua vida, tudo passa por relações entre vontades e ideias, no sujeito. As vontades não são fenômenos autônomos, mas impulsionados por desejos que emergem do aleatório de nossas (des)construções mentais. E as ideias são articulações entre o que queremos e o que o mundo nos apresenta como possibilidade. Esse tipo de itinerário dá a medida da coisa: o que nos forma são processos de identificação, ou seja, de reproduções , no indivíduo, de ideias que surgem do discurso (que está “fora dele”, no mundo). Se o discurso apela para mitos como o do individualismo e o da liberdade, é exatamente isso que condiciona o imaginário das pessoas. Se a proposta é uma lógica voltada para o confronto de ideias e para o que entendemos como “social”, o barato é outro.

Vivemos um mundo, hoje, que acredita piamente na tal liberdade de mercado. Apesar disso, Marx, os Russos e Fidel deixaram um legado intelectual ímpar, que remete a pensar nas incontáveis mazelas e mentiras do capitalismo. O poder continua nas mãos de poucos. E a única liberdade que existe de fato é a de aderir, sem questionamentos, ao be-a-bá do shopping-center. Isso desemboca no que temos visto, constantemente: violência, sexualidade juvenil exacerbada, uma burrice galopante e um sistema completamente vulnerável, pautado por símbolos fraquíssimos, no que diz respeito à construção de sociabilidade, como o crédito, o consumismo, a saúde pautada pela venda de remédios e a educação entregue às baratas, sem o menor investimento em qualidade.

Darcy Ribeiro, que chegou a ser Ministro da Educação de Salvador Allende

Não deixe de ler

Não deixe de ler

no Chile, já disse, certa vez, que o brasileiro é, simbolicamente, um “ninguém”. Filho de uma mãe vendida (a índia) com um pai ladrão (o português), o brasileiro não tem com quem criar “identificação” efetiva. Dá no tal complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues apontou com propriedade. O que vem de fora acaba sendo sempre melhor. E é por isso que Oswald de Andrade, um de nossos grandes poetas, propunha algo como uma “antropofagia cultural” para o brasileiro. Golfar nossa submissão ideológica, para tentar pensar-se como povo para além das cartilhas estrangeiras. Mais ou menos como aconteceu com Cuba. Se alguém acha o sistema cubano complicado, que dê uma pesquisada na história do Haiti, vizinho de Cuba e muito semelhante a ela, na época da Revolução de Che. Hoje, o Haiti é um dos países mais pobres do mundo, completamente entregue, depois de servir como quintal de exploração dos norte-americanos por décadas. Não fosse Fidel e os outros, Cuba teria seguido, inevitavelmente, o mesmo destino.

Marcelo Henrique Marques de Souza