pd20050316-151411-copyAbro o jornal e leio: bala perdida mata menina de dois anos. Mulher espancada entra em coma. Empresário é preso por pedofilia. População faz quebra-quebra após o jogo. Ainda me espanta a violência que se esparrama nas 24 horas do dia. Mas há também a violência muda, mais amiúde, nos faróis de cada rua. A violência que se cala, o silêncio que fere, as humilhações, até mesmo os xingamentos dos desconhecidos pelas nossas falhas, tão humanas. É uma raiva, um ódio inexplicável, pelos que têm e pelos que não tem. E esta emoção irracional – será irracional? Ou será a razão do ser humano? – parece sempre pronta a explodir.

ohxul-a-galope-1Uma vida, um país

Em cada conto do livro A Cavalaria Vermelha, de Isaac Babel, a fúria se faz presente, ao lado de um lirismo que não consegue dissimular a brutalidade. O homem com sífilis, que passa a doença para sua mulher, conscientemente. O inimigo pisoteado até a morte – não uma, duas ou três vezes, mas até a exaustão. A própria casa, queimada, os objetos destruídos, a terra arrasada. É uma fúria que ultrapassa – ou precede – a própria Guerra. A Guerra é uma desculpa: ela avaliza as ações inexplicáveis. Ela torna plausível a vingança. Mas os motivos são mesquinhos: o “meu” cavalo roubado. O cargo ou promoção que não me deram. O poder, a posse, o desejo. Não é pelo território perdido ou pela Nação invadida que se briga e que se oprime, mas sim, por este país interior – o próprio eu que foi esmagado, derrotado, despedaçado. Assim, explode a vingança. E quantas vezes não fui eu mesma carrasca nas pequenas causas! Quantas vezes não xinguei, não perdi a cabeça frente aos mais humildes, os mais fracos – a moça do telemarketing, o caixa do banco, um colega de escola… Prometo nunca mais me estressar, para logo ali a frente, de novo pisotear a alma de alguém com palavras que são balas de aço. Ainda não consegui ser zen – e nem ao menos tenho a desculpa da guerra! Ethel SC