kcadezxtucabbxupvcaqd91q6cas06ihtca9dbvwkcaeh3eqpca86g56ycax0g035ca224lz5cam26ohocaaypu2ncal59va5cahpu1nuca83td7dcaexmzt0ca22152gcaf90h45cacu8ibj1Assim eu me arrastava até que o camarada Lênin e o camarada Trotsky fizeram mudar de rumo a minha enfurecida baioneta, indicando outros intestinos e vísceras mais predestinados e merecedores de atenção

Essas irmãs são de caridade diabólica! Para tirar nossas roupas, tentaram mais de uma vez nos adormecer com soporíferos…

Nikita Balmachev foi acusado de traição. Quebrou um hospital juntamente com alguns outros e os dois trechos acima são de sua defesa ao juiz Burdenko, tentando fugir aos que o acusaram. Um dos contos magistrais de “A Cavalaria Vermelha”, livro que estamos lendo agora. As justificativas de Balmachev podem ser consideradas engraçadas. São mais: o retrato da sociedade em que ele vivia, aliada a um momento de profunda instabilidade política e social. Na Guerra Civil Soviética, a distância entre o heroísmo e a traição era ínfima. Podia ser um passo. Uma palavra mal dita. Um gesto. Um tiro errado. Um amigo de infância. Um amor de juventude. Qualquer coisa.
0ca0fblecca5y53nacat9wt2hcaxls2j7cag2ctecca1owpevca8o15qicads3zajcaldby21caoma2z1ca8rzdibcau7fs39cazxb0upca7yu3xocarhumzicadwtcyicavi93ydcaiydyucImaginem o seguinte: em 1917 um tzar é deposto; um regime político, jogado ao chão e um sistema político/econômico assume o poder num mundo que lhe é totalmente hostil. E isso em meio a uma guerra mundial sangrenta, com a Europa coberta por armamento militar e um dos lados já prestes a se render. O que fazer? Aproveitar a ocasião para invadir aquele país ali ao lado, que de repente derruba e aprisiona um rei, pretendendo mudar a ordem econômica mundial. Invertê-la. Subvertê-la. Exatamente isso foi feito.
Então, tão logo os soviéticos assumiram o poder, se depararam com o fato de que diversas tropas estrangeiras estavam tomando de assalto seu país. Isso alimentou a contra-revolução. Havia uma luta em dois lados, com um deles sendo o das tropas estrangeiras estocando o recém nascido estado soviético e, de outro, os “russos brancos” tentando devolver o trono ao tzar. Ou o tzar ao trono, o que, no fundo, quer dizer exatamente a mesma coisa.
Nicolau II e todos os seus familiares diretos morreram por causa e em consequência disso, na arena real. Balmachev, na arena ficcional, teve que se defender com seus argumentos toscos – e até mesmo engraçados – também pelo mesmo motivo. As fronteiras eram muito fluídas…
Sobre tudo isso não fala apenas Babel nesse livro que estamos considerando. Fala também Vladimir Maiakovski, o grande poeta da revolução soviética e que, em dado momento, “se suicidaram-no” ao final do conflito. Sobre ele e para reflexão, deixo o fantástico texto abaixo:

Na primeira noite eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

E para terminar, e porque o que motivou 1918/1922, de certa forma retornou em 1939/1945, um último texto antes de meu bom dia a todos:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar…
Martin Niemöller, 1933 ,símbolo da resistência aos nazistas