Acho que não percebi isso da primeira vez que li A Cavalaria Vermelha. Talvez tenha sido decorrência do tempo, da maturidade ou sei lá mais o que. O fato é que agora me sobressai, a partir do avanço da leitura, o olhar preconceituoso de Babel e ele se detém, inclusive, sobre o seu próprio povo, os judeus.

É verdade que ele era um revolucionário, marxista, o que significava, pelo menos para o consumo do partido e externo, que era ateu. E talvez seja para demonstrar isso que em várias passagens do livro ele acaba zombando da religião, sobretudo nas referências aos padres – ortodoxos ou católicos – e às crenças dos próprios soldados, educados dentro de uma marcante religiosidade russa. Quando se detém nos judeus, no entanto, seu olhar muda.

Logo em um dos primeiros contos, ao falar do espaço ocupado pelos judeus, ele o relaciona com a sujidade, mandando-os limpar um quarto onde ficaria. A partir daí as referência são sempre feitas com base em um olhar preconceituoso, seja pela pretensa usura, seja pelo tipo de comérciou e até pelas próprias práticas religiosos. Não é, no meu entender, um olhar simplesmente crítico. Mas sim fruto de um estereótipo construído em torno dos judeus, do que são e do que fazem.

É certo que Babel relata a crueza da guerra, mostra como o povo vivia, as misérias das próprias tropas e a extrema violência que marca não só a relação entre os próprios soldados e desses com seus comandantes, mas e principalmente em relação aos poloneses, que combatem. Mas para o “inimigo” às vezes ele até tem um olhar condescendente, como ao contar a história das pinturas sacras que reproduzem as pessoas do local.

No que se refere aos judeus, não. Ele embora os tenha procurado em algumas ocasiões, apresenta-os de forma muito, muito pejorativa e reproduz – o que talvez até seja compreensível – os estereótipos da época, que fala em usura, em exploração, etc. O fato é que, sendo judeu, Babel não tem uma visão positiva de quem também o é. Nem do comportamento, nem das crenças, mesmo aproveitando-se de um encontro para comer e beber.

O fato de o preconceito estar explícito, não faz com que a literatura de Babel seja menos importante. Enquanto arte, a literatura não tem a obrigação de ser politicamente correta. Acho que até pelo contrário. O que fica evidente, no entanto e no meu entendimento, é que a literatura acaba refletindo os pontos de vista de quem a produz. E acho que isso aconteceu com Babel.