Goya

Goya

Não é necessário ler o livro A Cavalaria Vermelha de Isaac Babel para se concluir que tempos de guerra são tempos bicudos. No entanto, a cada conto lido, a cada página vencida, nos deparamos com a dureza da guerra colocada de uma forma tão próxima ao que imagino ser o real que as vezes consigo sentir a angustia de quem está em tempos de guerra. Acho que por isso, por conseguir me colocar em um ambiente tão alheio a minha realidade de vida, já posso dizer que o livro de Babel cumpre sua função.

Desde a primeira página somos expostos a uma crueldade que deslocada para outra época, em tempos de paz, poderíamos dizer que a guerra, incluindo o o pós guerra, expõe o indivíduo a condições que os coloca de lado a lado com a irracionalidade. O que Babel nos mostra da guerra é:

  • a violência desproporcional: ” Tinham-lhe torcido o pescoço e partido o rosto em dois…”
  • a perda de sensibilidade: ” Os crânios eram apenas esculturas sobre um catafalco e já não me amedrontavam…”
  • a decadência do amor: “…papai, que feriu e matou meu irmão Teodoro…dizendo: Animal, cão vermelho, filho de cadel.”
  • a estagnação e a fome: “E nós, que não tínhamos pão, extraímos o mel com nossas espadas… Não ficaram abelhas em Volínia.”
  • a violência sexual e a proliferação de doenças:  “…sofreram muito com a doença ruim e se arrastaram durante todo o inverno, tratando-se com ervas… voltou para a cabana e (mesmo contaminado) passou a noite com sua mulher”
  • a vingança e a justiça feita com as próprias mãos: “…na terceira noite, a aldeia viu a fumaça subindo da cabana de Prishchepa.”
  • e finalmente a loucura: “… gritou desvairado e, subindo para um tronco de árvore, despedaçou a túnica e arranhou o peito”.

Esses são apenas alguns exemplos dentre tantos outros que encontramos em todos os contos do livro.

Como o Lino disse em seu primeiro post aqui sobre o tema proposto pelo Álvaro, a crueza preside a guerra independente da época. Seja ela feitas com dispositivos tecnológicos de última geração, seja ela química ou biológica, seja ela do tipo corpo a corpo como era desde as eras primitivas. A guerra, que tem sede de sangue, ou para tornar mais atual a coisa, sede de petróleo, destrói não apenas os indivíduos que morrem na guerra, mas destroem também os que sobrevivem a ela.

Para minha sorte, tudo o que eu sei sobre a guerra ou as grandes revoluções foi aprendido de forma absolutamente superficial. Ainda era muito pequena quando o Álvaro e seus companheiros lutava contra a ditadura militar aqui no Brasil mas lembro vagamente de algumas coisas que escutava aqui e acolá. Estudei os livros de história e escutei os casos de professores que foram torturados. Li uma vez um livro muito interessante da Simone de Beauvoir, chamado Os Mandarins que fala um pouco do período pós segunda guerra na França. Li também sua biografia detalhando os tempos de guerra.Tive também a oportunidade de conversar, na Inglaterra, com soldados que enfrentaram a guerra nas trincheiras. Além da experiência vivida por minha própria família que deixou a Polônia durante a segunda guerra mundial para tentar sobreviver do outro lado do oceano.

O fato é que não existe uma só pessoa nesse mundo que ache a guerra uma coisa legal. É extremamente comum ver gente advogando contra a guerra e contra as revoluções… afinal, seja qual for o motivo guerra é sempre ruim para ambos os lados. E as perguntas que nos fazemos são sempre a mesma. Para que matar por um pedaço de terra ? Para que matar por uma ideologia ? O fato é que, seja qual for a causa da guerra, podemos entender bem que o que está por trás de toda guerra e revolução é a tentativa de quebrar (no caso da revolução proletária) ou manter (no cado da revolução burguesa) os interesses de uma minoria que esmaga e explora uma maioria mais pobre.

Mas poderíamos nós viver sem a guerra ? Sim, eu acho que poderíamos sim… mas não nos submetendo a czares. E infelizmente esses não estão nem um pouco preocupados com a sanidade mental de seus soldados e do povo. Portanto… volto a perguntar… poderíamos nós viver sem a guerra ?

Um ótimo final de domingo para todos !

Lys