Como não comprei o livro ainda, vale colocar algumas palavras sobre o papel fundamental da Rússia (inclusive enquanto União Soviética) para a manutenção do debate no mundo dito civilizado.

O filósofo Karl Marx

O filósofo Karl Marx

O filósofo Karl Marx, que era alemão, escreveu seu famoso “Manifesto Comunista” no ano de 1848. Portanto, um ano antes do ditador russo Nicolau I condenar o escritor Fiódor Dostoiévski à morte por participar de reuniões do Círculo Petratchévski, grupo russo de socialistas utópicos. Na frente do pelotão de fuzilamento, o escritor é avisado de que sua pena fora comutada em serviços forçados prestados na Sibéria, onde passaria seus próximos quatro anos.

Enquanto isso, a obra de Marx e Engels ganhava a Europa, alimentando a discussão sobre as contradições do capitalismo. Quero pegar dois pontos do Manifesto, para pensar implicações ideológicas do imaginário capitalista e refleti-los em articulação com a Revolução Cubana. Diz Marx:

“Onde passou a dominar, [a burguesia] dissolveu a dignidade pessoal no valor de troca e substituiu as muitas liberdades, conquistadas e decretadas, por uma determinada liberdade, a de comércio. Em uma palavra, no lugar da exploração encoberta por ilusões religiosas e políticas ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada e seca” (p. 10).

E diz ainda:

“As relações rígidas e enferrujadas, com suas representações e concepções tradicionais, são dissolvidas, e as mais recentes tornam-se antiquadas antes que se consolidem. Tudo o que era sólido desmancha no ar (…)” (p. 11).

O alemão achava que o socialismo e o comunismo deveriam surgir em um país que estivesse num estágio de elevado desenvolvimento capitalista. Isso porque neste caso, segundo ele, as contradições de representação do capital apareceriam com mais ênfase. Mas não foi o que aconteceu.

No ano de 1887, os dois irmãos de Lênin, Alexandre e Ana são presos por tentar assassinar o czar. Ana é deportada e o rapaz é condenado à morte e enforcado, no dia 8 de maio.

Em 1905 acontece a chamada “Primeira Revolução Russa”, que obriga

Lênin discursando

Lênin discursando

Nicolau I a conceder uma Constituição ao país. Lênin é exilado, mas consegue retornar para a Rússia. Em 1916, escreve seu maior trabalho, “Imperialismo: fase suprema do Capitalismo”. Em 1917 ocorre a Segunda Revolução Russa, e em 1918 a Terceira, decisiva, que termina com o massacre da família imperial em Ekaterimburgo, no dia 16 de julho. No dia 30 de agosto, uma mulher chamada Fânia Kaplan dá três tiros em Lênin, tentando matá-lo. Ele escapa, embora gravemente ferido.

O revolucionário morreu no ano de 1924, de hemorragia cerebral. Não viveu para ver as distorções, aplicadas pelo governo de Stalin, aos seus ideais. Mas deixou algumas lições, exercitadas por outros dirigentes, como o cubano Fidel Castro. Sobre Lênin, diz Fidel:

“Penso que tampouco Marx odiou algum homem e que Lênin não odiou sequer o czar. Odiava o sistema imperial czarista, a exploração dos proprietários de terras e dos burgueses. Também Engels odiava o sistema. Não pregaram o ódio contra os homens, mas contra o sistema. São estes os critérios e os princípios da luta de classes e também do chamado ódio de classe, que não é o ódio de uns homens contra outros, mas sim, ao sistema de classes, o que é diferente”.

Não pactuo da ideia de “classes” proposta pelo Marx. Freud, que era bem esperto, sacou que a economia não é o motor da história. Ela-economia surge enquanto ciência, enquanto roteiro ideológico, como bem lembra e demonstra Foucault em parte de sua obra.

Che Guevara e Fidel Castro

Che Guevara e Fidel Castro

O capitalismo prega que há liberdade no “mercado”. Alardeia que o mercado seria a única forma de se conseguir similitude, no nível social, para o instinto competitivo do ser humano. O problema está justamente aí. Olga Benário Prestes, judia comunista entregue a Hitler pelo governo brasileiro, na época da Segunda Guerra, coloca nestes termos: “Saiba que ceder aos instintos é multiplicar o bordel burguês. E quem diz isso não sou eu: é Lênin”.

Lênin era homem das melhores intenções. Pretendia diminuir as desigualdades econômicas através da Revolução. Propunha o socialismo como uma garantia de bem-estar a todos os membros do Estado, o que aceleraria, inclusive, a fusão entre as nações.  O problema com sua abordagem é que confiava demais na capacidade social das massas. Na ideia de “massa” reside talvez a grande falha do pensamento revolucionário de Lênin. Refletiremos o porquê disso no próximo texto, assim como os motivos que levam a pensar no fato de que Fidel foi além justamente porque sacou a falácia destes termos, pensando no social como limite para os instintos, e não como espelho deles.

Marcelo Henrique Marques de Souza

Próximo texto: “O Socialismo de Fidel e a questão freudiana da Identificação”