bxk22741_abelha-_-rubio-marra-1-800“Tive pena das abelhas. As tropas trataram-nas da maneira mais brutal. Não restaram abelhas em Volínia. Maculamos as abelhas e as destruímos como enxofre e uma explosão de pólvora. Um cheiro de chamusco exalava-se na sagrada república das abelhas. Morrendo, elas voejavam lentamente em torno, num leve zumbido que mal se podia ouvir. E nós, que não tínhamos pão, extraímos o mel com nossas espadas… Não ficaram abelhas em Volínia.” (O Caminho de Brody, in A Cavalaria Vermelha, Isaac Babel, 1969).

Para quem está alheio, a guerra parece algo distante. Um mundo a parte, que temos contato pela mídia. A violência está no outro, acontece para o outro. Seguimos nossa vida, cotidiana e rotineira. Dormimos, acordamos, comemos, trabalhamos. Amamos e sofremos. Fazemos planos para o futuro. Estas coisas do dia todo, de todo dia. Em nosso imaginário, no Planeta Guerra apenas mata-se e odeia.

os brutos tambem amam, 1953

os brutos tambem amam, 1953

Os brutos também amam

Mas, por incrível que pareça, no meio do sangue também se ama e se sofre e se come e se procria. Uma frase tornou-se clássica desta clássico filme (Os brutos também amam, no original, Shane, 1953): “– Uma arma é uma ferramenta, Marian. Não melhor nem pior que qualquer outra ferramenta. Um machado ou uma pá ou qualquer coisa. Uma arma é tão boa ou tão ruim quando o homem que a usa.” Então uma guerra ou uma revolução pode ser boa? Ha boas lutas e más lutas? Os soldados também tinham mulheres e filhos, pais e mães, amores e amantes. Ou, como contra-argumentou minha mãe,quando perguntei se tinha pego referências sobre sua nova faxineira: –“Mas ela vem com a filha pequena!”. O presídio está cheio de pais amorosos e filhos chorosos.

lista de shindler

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O mal absoluto e sua banalidade

Pois quando se instala a crueldade no dia-a-dia, ela passa despercebida. Já não mais nos espanta as crianças pelas ruas, já não mais nos espanta o desaparecimentos das abelhas. Assim pergunta Hannah Arendt: “Será possível que o problema do bem e do mal esteja conectado com nossa faculdade de pensar?” Também nasciam crianças nos campos de concentração. Também se selaram pactos de amor. Também se cantava e se gritava “Avante!”, como coloca Babel. Avante. Mesmo que já tenhamos matado todas as abelhas. Ethel Scliar