Isaac Babel fez um livro de contos para narrar, com ele, as campanhas da guerra civil de 1918 a 1922, que se seguiu à Revolução Soviética de 1917. Escreveu no auge das atividades revolucionárias, quando o sangue ainda corria e os ânimos estavam muito exaltados, mas conseguiu fugir ao ufanismo e escreveu uma obra lúcida, brilhante. Um painel pungente do que eram as escaramuças de guerras naqueles anos de muita violência
Era a época em que, na recém fundada União Soviética, fazia sucesso o “Realismo Socialista”. Tratava-se de um “gênero” ou estilo artístico oficial da União Soviética, ainda embrionária durante as lutas iniciais, mas consagrada entre as décadas de 1930 e 1960. Na prática, uma política de Estado determinante da estética em todos os campos da aplicação da forma, desde a Literatura até o Design de produtos, incluindo todas as manifestações artísticas e culturais soviéticas (Pintura, Arquitetura, Design, Escultura, Música, Cinema, Teatro etc.). O Realismo Socialista esteve diretamente associado ao “comunismo ortodoxo” e aos regimes marxistas de outros países, mas com orientação e/ou inspiração stalinista. Como a China durante muito tempo. Babel não escrevia assim. Não entendia que essa fosse uma arte literária. Em função disso, foi perseguido e morto em 1941, na Sibéria.
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Na definição, conto não é obrigatoriamente ficcional. É apenas o gênero de narrativa mais curto, mais conciso. Os contos de Babel misturam a realidade com a ficção. Nas suas narrativas estão personagens históricos da antiga União Soviética, como o marechal Mijáilovich Semion Budionni (foto ao lado), que não apenas lutou em 1917, de 1918 a 1922, mas também na II Guerra Mundial. Morreu já muito velho, coberto de glória. Sobreviveu a Lênin, a Stalin e aos demais chefes de Estado. Impunha-se e era líder do Exército. Muito perigoso, portanto, tentar enviá-lo para a Sibéria. Além do que, nunca foi golpista.
Juntamente com Budionni e outros personagens reais, Babel construiu seu livro com muitos outros, nascidos de sua imaginação. Esse é um dos méritos do livro. Nas narrativas o leitor encontra os judeus, personagens importantes na Revolução de 1917 e dos quais o escritor era um deles, bem como os cossacos, povo originariamente da Rússia Asiática e conhecido por sua coragem, por seu desprendimento, e os poloneses, contra os quais lutou a Cavalaria Vermelha e Isaac Babel. Tudo está no livro.
Há momentos esplêndidos. Como o conto Prischepa, que narra a história do soldado revoltado com a morte do pais, que volta à sua cidade e se vinga dos moradores locais. Isso aconteceu em muitas ocasiões, não apenas durante os anos 1918/1922, mas principalmente durante a II Guerra Mundial, depois que o Exército Soviético retomou os territórios perdidos aos alemães e descobriu cidades destruídas, mulheres violentadas, gado morto, poços envenenados, corpos largados nas ruas para apodrecer. Havia Prischepas aos montes naquele Exército. E Babel já morto era…
Ao invadir a Alemanha, os russos e outros povos Soviéticos vingaram-se do exército alemão. E houve um banho de sangue que teve de ser contido pelo próprio alto comando Soviético, com execuções autorizadas pelo marechal Zukov. Prischepa conta uma história da guerra civil e antecipa o que seria vivido duas décadas mais adiante, na repetição do banho de sangue de 1917/1922.
Não há meias palavras em A Cavalaria Vermelha. E por ele ser um retrato fiel do que tenciona mostrar, tornou-se um livro famoso, sobrevivendo à morte de seu autor, à censura stalinista e aos diversos expurgos do regime soviético. É um painel perfeito, exato, com cores fortes.