trotsky Recebi meu livro na sexta-feira passada e comecei a folheá-lo com ansiedade. Sempre tive um interesse muito grande pela revolução russa e a contra-revolução. Álvaro me trouxe então apenas mais uma oportunidade de me aprofundar nesse tema que tanto gosto. Certamente será ótimo aprender os mais diversos pontos de vista, com as discussões que teremos aqui no Clube do Livro nas próximas semanas. A figura ao lado é um poster do programa bolchevique (que significa maioria em português) mostrando Leon Trotsky, o líder do exército vermelho, matando o dragão da contra-revolução como se fosse São Jorge.

Sendo a história bastante interessante e atraente por si só, na minha opinião pouco mais é necessário para chamar minha atenção para o livro de Isaac Babel. No entanto, apesar de ter uma importância histórica, esse não é um livro de relato de fatos históricos tal qual “Como Fizemos a Revolução” do São Jorge aí do lado🙂. Esse é um livro de contos ou textos escritos por Babel, baseado em suas experiências, durante o período em que fez parte da Cavalaria de Budieni. Ou seja, a Cavalaria Vermelha é um livro de contos de uma guerra civil vista pelos olhos de um soldado.

Não serei eu que estragarei a surpresa de quem ainda não leu o livro, portanto, meu post de hoje ficará apenas nas primeiras páginas. E logo nas primeiras linhas já temos material de sobra para vários posts por aqui…

” Rodeavam-nos campos floridos, vermelhos de papoulas, a brisa da tarde perpassava sobre campos de centeio madurando e, no horizonte, o virginal trigo sarroceno se erguia alto, semelhante ao muro de um convento distante… Um sol alaranjado descia do horizonte, parecendo uma cabeça decepada; a luz suave coava-se entre rasgões de nuvens… “

Nessas primeiras linhas do primeiro conto entendi a mensagem da contra-capa do livro, que diz o seguinte:

“…Babel opôs ao lirismo dos seus contemporâneos uma objetividade desconcertante… Babel descreve toda a crueza e desespero do dia-a dia no front com absoluto sangue-frio…”

Os textos curtos, as descrições misturando coisas belas com cenas cruéis, empresta ao livro um ritmo deveras muito interessante. Rápido, imprevisto e até mesmo angustiante… muito angustiante. Assim percebi as primeiras 20 páginas. Mas o que esperar de um livro com contos de guerra ? No entanto, para minha surpresa, a partir da página 21, com a interessante história de Apolinário, minha respiração voltou ao seu ritmo normal e a angústia foi aos poucos sendo substituída pelo curiosidade normal. Entendi então, por volta da página 60, que Babel iniciou seu livro de uma forma fantástica, me colocando dentro de seu mundo, do mundo de um soldado em uma cidade qualquer da Polônia, encarando a realidade de uma guerra.

Não sei se os textos seguem uma ordem cronológica e o autor foi se acostumando com sua realidade, mas me parece que com o passar das páginas as coisas ficam mais leves, ou até mesmo uma cabeça decepada traz menos angústia do que quando as li presente pela primeira vez. Será então possível se acostumar com as atrocidades da guerra ?

Ainda me falta muito pela frente mas posso afirmar que não gosto de contos de guerras, da mesma forma que tenho um verdadeiro horror à guerras mesmo sendo ela por algo que considero uma grande causa, tal como foi a revolução russa. No entanto, ao mesmo tempo vejo com igual horror a má distribuição de renda e os contrastes sociais que vivemos em nosso país (Paraisópolis/Morumbi – Paço dos Reis, veja a foto abaixo). E se isso não é tão cruel quanto a guerra não seria então um motivo e tanto para começar uma ?

paao-dos-reis

Entendo que todos nós somos capazes de nos acostumar com os horrores da guerra a ponto de deslumbrar “os raios oblíquos da lua refletida sobre as pernas finas de um cadáver desnudo que jaz largado na colina” da mesma maneira que nos acostumamos com o fantasma da desigualdade social assombrando o quintal de nossas casas, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

Horror por horror, que sejamos então abençoados pelo manto sagrado da revolução de São Jorge, com todo o seu lirismo desconcertante e cruel, pois mais desconcertante e cruel é o que vemos na foto logo aí em cima.

Bom domingo de carnaval para todos e até semana que vem !

Lys