“Oh morte, oh, cobiçosa, oh, ávida ladra, por que não tens compaixão de nós, ao menos uma vez?” (A Cavalaria Vermelha – O cemitério de Kozin)

isaacbabelVamos começar a comentar “A Cavalaria Vermelha” respeitando o fato de que a maioria de nós ainda não leu o livro. Está esperando por ele ou então ele só chegou agora. Mas quero abordar dois assuntos que têm a ver diretamente com os escritos de Isaac Babel (foto) e a Revolução Soviética, sem adiantar o que a maioria quer conhecer percorrendo as páginas dos contos de Babel.

Notem apenas, a guisa do livro, que o autor era judeu. Daí o fato de ele retratar em seus contos uma imensa maioria de judeus combatentes. Sim, porque eles foram uma das forças mais atuantes nos tempos da Revolução de 1917 e durante as lutas de 1918 a 1922, quando a contra-revolução tentou derrubar o regime político recém chegado ao poder na Rússia. Esse, por sinal, é o tema da série de textos curtos que compõem esse livro.

Um dos nossos assuntos, portanto, tem a ver com revoluções. Um dia uma filha minha me perguntou se era necessário matar o czar e toda a família real russa. Inclusive criancinhas (deve ter nascido aí aquele axioma de que comunista come criancinhas!). Eu digo que as revoluções têm sede. Muita sede. E fome. Bebem sangue, inclusive o dos aliados e não apenas o dos inimigos.

A Revolução Francesa matou grande parte de seus líderes. Recordam-se? Não foram apenas Luis VXI e Maria Antonieta quem experimentou a lâmina afiada da guilhotina. Ao contrário, a invenção de Monsieur Guillotin era democrática…

images31No caso da Revolução Soviética, eliminar uma monarquia só se faz com segurança se não houver mais monarca. É diferente da República, onde você depõe o presidente, por exemplo, e pode eleger outro depois. Na monarquia o poder é vitalício. E passa de pai para filho. Daí o fato de que, para destruir a forma de governo com segurança, só mesmo não havendo mais ninguém para assumir o trono. Nicolau II e seu entourage perderam a chance de se exilar, quando a tiveram. Depois, bem, depois já era tarde demais. Luís XVI que o diga. Maria Antonieta, também. Eles eram anteriores, eram exemplos. Que pena!

Aqui faço um adendo necessário: estudiosos de ciência política vão dizer, e com razão, que a essência das duas revoluções era totalmente diversa. Sim. Eu traço o paralelo apenas para deslocar o assunto de um campo para outro, de modo a mostrar que uma revolução proletária pode seguir a mesma lógica de uma revolução burguesa. Isso feito, sigamos adiante.

imagens2Depois do primeiro, vem um segundo assunto: porque matar Isaac Babel, se ele foi um dos melhores revolucionários da recém criada União Soviética e havia lutado com tanto denodo, bolchevique que era, contra os mencheviques?

É que as revoluções têm muita sede, mas muita insegurança também. Por mais que os aliados do chefe de estado se mostrem fieis, há sempre uma desconfiança grande, latente: “o que esse homem e seus seguidores podem fazer para me apear do poder?” E apear é o termo certo para a “Cavalaria Vermelha”.

Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (06 de maio de 1758, Arras — 28 de julho de 1794, Paris), teria se permitido explicar. Ele e outros mais. Mas o doce fio da lâmina da guilhotina não permite isso a ninguém.

images11Josef Stalin, que substitui Vladimir Ilitch Lênin, dirigia a causa proletária com a visão de “o meu Estado” (“Lè ètat est moi”, disse Luiz XIV, o Rei Sol). Era perigoso confiar em muita gente. Ao mesmo tempo, necessário que não apenas os inimigos sentissem medo. O terror é sempre mais eficiente se ele tem o poder de alcançar a esquina e a esquina souber disso. Daí Babel. E da mesma forma que ele, muitos outros. Milhares, pois a Sibéria era grande e comportava tal rebanho. Além do mais, sobravam balas para os fuzis nos primórdios da Revolução Comunista. E fuzilamentos são espetáculos exemplares, públicos, concorridos, comentados. Marcam muito, derramam sangue. Geram medo!

Leiam “A Cavalaria Vermelha”. Fala de uma das épocas mais conturbadas da história mundial. Não a única, claro. Os relatos do escritor ficaram na história não por causa do assunto, mas por sua genialidade. Afinal, ele escrevia e contava as suas histórias como… Bem, isso é assunto da semana que vem. A gente vai voltar a falar do livro, do autor, da época. Com muito prazer, creio eu.

Em tempo: bolchevique quer dizer “partidário da maioria”. Menchevique, “partidário da minoria”. Em tempos de guerra, de revoluções com muito sangue correndo, quem decide se você é de um ou outro grupamento é o vencedor.