Isaac Babel em uma de suas últimas imagensUma etapa foi vencida, outra começa. A Cavalaria Vermelha, que começamos a ler, revela, sem dúvida, um novo mundo. E acho que, no final, ele é bem mais cruel do que o universo de Sam Spade e das tramóias de figurões que andavam à procura de fortuna fácil e para consegui-la eram capazes de assassínio. O mundo de Isaac Babel, que escreveu A Cavalaria…, não era menos violento. Os contos mostram isso, com justiça sendo feita com as próprias mãos, traições de companheiros e, sobretudo, a crueza que preside qualquer guerra, seja a moderna, com enorme aparato tecnológico, seja a antiga, onde as disputas se resolvem, mesmo, com homens enfrentando-se  – e matando-se – a cara a cara.

A violência que preside A Cavalaria Vermelha não é edulcorada e nem bem educada. É fria, cruel e retrata uma situação em que ninguém gostaria de estar. Mas este, na verdade, não é o aspecto que quero abordar ao inaugurar a semana de nova leitura. Isaac Babel, como lembra bem Roniwalter Jatobá, o tradutor da versão que estou lendo, foi um revolucionário, participando da Revolução Russa e das guerras que ela travou, como soldado e como Comissário Político, um representante do partido junto às tropas, que cuidada da pureza ideológica delas.

Amigo de Trotski e do próprio Lênin, Babel, como todos devem saber, acabou preso no regime de Stálin e morreu na prisão, na Sibéria. Antes, talvez na tentativa de salvar sua vida, acabou repudiando o que escrevera em A Cavalaria Vermelha. O livro acabou sofrendo censura do regime soviético, que cortou passagens deles que se referiam àqueles que o stalinismo queria apagar. E acabou saindo de circulação na então União Soviética. Alé de apagar o homem, fisicamente, o regime queria matar a sua literatura.

O que aconteceu com Babel, pelo menos do ponto de vista de sua literatura, foi exatamente o contrário do que o regime soviético queria. Trazido para o Ocidente, A Cavalaria Vermelha foi não só editado, tornando-se conhecido, mas a literatura de Isaac Babel passou a ser elogiada e admirada. A linguagem crua, em todos os seus sentidos, que mostram a violência da guerra, mas não deixa de a olhar com um olhar sentimental, fez sucesso e consagrou o escritor russo como um dos grandes da literatura. O que ele disse, escreveu e pensou, permaneceu. Ao contrário da ditadura soviética, que acabou caindo.

Graças a essa permanência – que venceu a censura e o olvido de um regime que era mestre em apagar o que não lhe agradava – é que estamos iniciando a leitura de A Cavalaria Vermelha. Não foi a minha opção, pois preferia reler Hiroshima. Mas a escolha é ótima e Babel merece ser lido, não só como forma de tomarmos contato com a guerra e seus horrores, mas sobretudo por ver como um país conseguiu mudar de regime e o que pensavam dessa mudança os vários personagens.

Uma boa leitura para todos nós.