Com esse post encerramos as discussões sobre o livro O Falcão Maltês de Dashiell Hammet. A escolha foi de nosso companheiro de leitura Lino que nos proporcionou momentos muito agradáveis de leitura e discussão. Um livro leve com uma linguagem bem direta, escrito durante a grande depressão econômica nos Estados Unidos, que nos mostrou um herói com motivações questionáveis, mas com várias qualidades e defeitos quase igual a nós. Sam Spade, que no início da trama se fazia de bobo, parecendo contar apenas com a curiosidade e a sorte, nos surpreendeu com suas habilidades em um momento máximo no final do livro.

O cinismo e frieza de Sam Spade, típico dentro do gênero noir, nos fez voltar ao passado e lembrar de nossas brincadeiras de criança e nossas paixões em diferentes fases de nossas vidas. Ao mesmo tempo nos colocou de frente para o futuro com todas as suas possíveis trilhas e bifurcações, nos permitindo várias reflexões sobre o que é verdade e o que é real, e também sobre o realismo norte-americano. E se o assunto foi a verdade e o real, porque não saber se o tal falcão encrustado de diamantes existiu de fato ? Pois até consultas ao oráculo tivemos esse mês por aqui.

O método analítico e a necessidade crucial de “saber o que se tem de observar”, uma espécie de sexto sentido, tão comum nos romances policias e muito bem definido em “Os Crimes da Rua Morgue”, nos fez lembrar da psicanálise e também do método científico. Como bem definiu Edgar Allan Poe, “O poder analítico não deve confundir-se com a simples engenhosidade porque, se bem que seja o analista necessariamente engenhoso, muitas vezes acontece que o homem engenhoso é notavelmente incapaz de análise”.

Por outro lado, a maneira sexista com que as mulheres foram colocadas na trama incomodou de fato todas as mulheres desse Clube. Se por um lado devemos entender que o livro representava um mundo bem masculino, escrito em uma época em que a mulher apenas começava a erguer a voz em busca de seus direitos, ou que Sam Spide era de fato arrogante com todos independente do sexo, por outro lado não podemos perder uma oportunidade para “abolir as mensagens subliminares que formam os homens e mulheres de hoje e sempre”. Mas a luta continua companheiras pois ainda há quem prefira o charme das avassaladoras e ruivas femme fatales, desde que elas se comportem como uma verdadeira lady obviamente.

Outra coisa interessante que comentamos aqui foi a necessidade da discussão para tornar nossas idéias mais claras. Talvez seja por isso que (quase) todos os detetives possuem um braço direito.

Falamos também da eterna briga entre detetives e a polícia e nesse ponto não posso deixar de citar um trecho de “Os Crimes da Rua Morgue”. O trecho é uma fala de Dupin, o pai de todos os detetives analíticos, ao se referir ao chefe de policia, que ficou incomodado por ter seu caso resolvido por outra pessoa, e que com sarcasmo comentou sobre a conveniência de cada qual tratar de seus próprios negócios.

– Deixemo-lo falar – disse Dupin, que achou melhor não replicar. – Deixemo-lo discursar. Aliviar-lhe-á a consciência. Estou satisfeito por havê-lo derrotado no seu próprio castelo. Não obstante o fato de não haver ele logrado êxito na solução deste mistério, não é, de modo algum, coisa de tanto espanto, como ele acredita, porque, na verdade, nosso amigo chefe de polícia é um tanto sagaz demais para ser profundo. Falta suporte à sua ciência. É toda cabeça e não corpo, como os retratos da Deusa Laverna, ou, no melhor dos casos, toda cabeça e ombros, como um bacalhau. Mas apesar de tudo é uma boa criatura. Gosto dele, especialmente pela sua magistral impostura, graças à qual alcançou fama de engenhoso, quero dizer, o jeito que ele tem de nier ce qui est, et d’expliquer ce qui n’est pas. (negar o que é, e explicar o que não é. Rousseau, Nouvelle Heloise.N.T.)

Para quem quiser ler o conto na íntegra, ele está disponível para download nesse link aqui.

Mas o mais importante de tudo é que a vida segue seu rumo e o Clube do Livro fecha uma página para abrir outra, cumprindo sua função, que é a de ampliar nosso horizonte de leitura e transformar a leitura que antes era individual em algo compartilhado.

Semana que vem as páginas desse clube se pintarão de vermelho em uma deliciosa cavalgada pela revolução russa de 1917.

Um forte abraço para todos e até domingo que vem !

Lys

PS: E que tal aproveitar o domingão para ver um filminho e de quebra treinar o inglês ? Com vocês, O Falcão Maltês que virou uma das referências do cinema noir, dirigido por John Huston e estrelado por Humphrey Bogart (na pele de Sam Spade) e Mary Astor (como Brigid):

Mas esse é só o trailer. Para ver o filme completo entre nesse link aqui e não esqueça de preparar aquela pipoquinha básica🙂