“Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que é feito

Stephane Mallarme

Stephane Mallarme

de adivinhar pouco a pouco: sugerir, eis o sonho“. Esta frase, de Stephane Mallarme, um dos maiores poetas do Simbolismo, exprime as intenções deste texto de hoje.

Uma das referências mais comuns ao romance de Dashiel Hammet é a de que se trata de uma história “realista”, mais próxima do que ocorre na… “vida real”. Segundo Marco Antonio Barbosa, em artigo de novembro do ano passado para o caderno “Ideias” do Jornal do Brasil, os crimes sempre parecem mais sangrentos e assustadores nos livros do escritor norte-americano (p. 7).

Buscar conexão com a “realidade” sempre foi hábito comum na leitura dos textos ficcionais, no decorrer da história. E neste particular, até Machado de Assis, nosso escritor maior, já foi considerado – e é até hoje, por alguns – um escritor “realista”.

Antes de qualquer coisa, pensemos no que é o Realismo em si mesmo (pois é aí que surge o caráter distintivo do termo, no que diz respeito à literatura). O escritor Eça de Queiróz diferencia da seguinte maneira: “O Romantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do caráter” (citado por Magalhães, p. 280). Roland Barthes, em um texto seu de 1956, intitulado “Novos problemas do Realismo”, usa a expressão “literatura de constatação” para se referir ao movimento.

"Garota do bandolim" - Pablo Picasso (Cubismo)

"Garota do bandolim" - Pablo Picasso (Cubismo)

Ora, a idéia de “sentimento”, como bem sabe qualquer um, é muito mais ampla do que parece aos olhos do escritor português. “Um olhar às vezes diz mais que mil palavras”, como bem diz a sabedoria popular. Além disso, podemos emparedar ainda mais o tema, pegando carona na colocação de Barthes, para refletir um quadro como o “Garota do Bandolim”, do mestre Pablo Picasso. Com o Cubismo, Picasso buscava justamente demonstrar que os sentidos, olhares e perspectivas que incidem sobre um objeto são múltiplos e, muitas vezes, extremamente sutis.

O grande barato da literatura, o que a distingue positivamente em relação ao jornalismo noticioso, por exemplo, é justamente o fato de que ela “sugere”. No próprio artigo de Marco Antonio Barbosa, vemos referência a isso, em relação ao próprio Hammet: “Uma das principais características da ficção hardboiled – da qual Dashiell Hammet é um dos fundadores e, possivelmente, seu mais influente estilista – é a desconexão entre o que os personagens enxergam (ou acham que enxergam) e a verdade atrás das aparências” (os negritos são meus).

Barbosa paradoxalmente defende a “aura de realismo incomparável” que existe, segundo ele, nos romances do norte-americano, em comparação com outros escritores do ramo, como Agatha Christie e Conan Doyle. Na minha ótica, o fato de ser um anti-herói não dá a Sam Spade um caráter mais “realista” em relação a um Hercule Poirot, por exemplo.  E nem as descrições mais “sangrentas”, como lembra o autor do artigo. Há, na Agatha Christie e em seus personagens, uma maior polidez, que é característica do povo inglês, especialmente aquele da primeira metade do século XX. E, para além disso, Agatha Christie se torna literatura justamente quando entra na seara da sugestão e não do ilusório factual.

O mais interessante no livro de Hammet, e na literatura de uma maneira

Gaston Bachelard

Gaston Bachelard

geral, é o fato de que nos obriga a testar opções, conexões, articulações. Refletindo sobre a questão da “retificação”, ou seja, sobre quando optamos por um enlace em detrimento de outras versões anteriormente desenvolvidas pela mente, o filósofo Gaston Bachelard coloca que “a idéia é sempre solidária de correlações. Vale por sua função. Sua função depende de seu lugar. Ela é (…) um instante do interminável monólogo que o pensamento faz para si mesmo. (…) [E] quando uma categoria se aplica, ela procede por eliminação. Em toda conquista há um sacrifício” (Estudos, p. 82).

O que Bachelard chama à atenção é o fato de que vontade e entendimento andam sempre de mãos dadas. Existem verdades pontuais na História, não há dúvida. Mas não na ficção, não na literatura. A literatura, diria eu, é o próprio “pontual” em exercício. É um exercício de deformação, visto que colidimos diversas reflexões, até escolher uma que encerre a trama em nossa mente, que, entretanto, continua, em seu monólogo, a retificar as possibilidades, na medida em que o pensamento acerca do livro não termina na página final, assim como nenhuma verdade se encerra em si mesma. E isso Bachelard mais uma vez sacou bem: “Como posso definir-me ao final de uma meditação em que só procurei deformar meu pensamento? Extendendo até o extremo essa deformação: sou o limite de minhas ilusões perdidas” (p. 86).