vil metal

vil metal

— Quero dizer que a senhora nos pagou mais do que pagaria se estivesse dizendo a verdade — explicou com brandura — e o suficiente para nos fazer aceitar tudo. (O Falcão Maltês)

Começa com a suposta fuga da irmã, segue com assassinatos, voltas e reviravoltas. O quebra-cabeça vai se tornando completo. Mas a mesa no qual as peças se encaixam, revela-se: dinheiro, ah, dinheiro, prá que dinheiro… O detetive Spade poderia ser movido pelo prazer de desvendar mistérios, ou até –se quisermos ser um pouco carolas – bancar o mocinho. Mas não. Ele quer mesmo é o dinheiro no bolso e isto, só se resolver os casos. Afinal, é um trabalho, como qualquer outro! E o segredo esconde o quê? Um falcão de valor inestimável, seja pela importância histórica, seja pelo seu peso em ouro. E o autor? Será que escrevia também para vender livros e ganhar o seu sustento?

falcao de ouro

falcao de ouro

A posse da raridade

Claro que dei uma de detetive e fui lá consultar o oráculo Google, para checar a parte histórica citada no livro. Esta mistura entre os dois mundos da ficção e da realidade é sempre fascinante. Mas porque será que se valoriza tanto o que é raro? Alguém pode me explicar, como se eu fosse uma criança de 5 anos?1 Ruivas… Loiras de olhos claros no Oriente. Os europeus barbudos e cabeludos, quando chegaram aqui por estas bandas da América, faziam sensação entre as mulheres nativas. Sim, o que é diferente, o que é raro, atrai o olhar, desperta o desejo. E nós continuamos nos esforçando para sermos diferentes… como todo mundo se esforça!

A Fonte, Marcel Duchamp

A Fonte, Marcel Duchamp

Tudo pela posse, tudo pela cobiça

E aí eu QUERO, quero, quero… É o objeto de consumo, o objeto de desejo. Não basta eu ter: é importante que o outro não tenha, para que eu manter a minha individualidade. Exemplos não faltam, a indústria da moda sendo a ponta mais visível desta discussão. O debate ganhou novos rumos na arte, quando se critica a pintura para “dependurar na parede” x arte efêmera e que não pode ser possuída, ou que é reproduzida em massa (pecado capital ter um poster, uma falsificação!). Ganha outros contornos, quando o MST prega a redistribuição das terras – mas tem coisa mais anacrônica do que querer ter a posse de um pedaço de chão e se recusar a produzir se ele não for seu? A cobiça fica palpável no sonho do brasileiro de ter a casa própria – e para que cuidar de um imóvel alugado, se ele não é meu? –“Ah, não vou investir tempo e dinheiro para os outros!”(mesmo que eu usufrua no momento presente). Só que o dinheiro e a posse acabam logo ali, no portão do cemitério. E as moedas escorrem entre os dedos, como líquido que se desfaz. E o falcão levanta vôo, e ninguém sabe em que ninho ele está agora – pois que posso almejar a posse de tudo, mas da vida, ah, da vida, esta é que nos possui, como última peça do quebra-cabeças. Ethel Scliar Cabral

ATUALIZAÇÃO

1. Esta frase (dos 5 anos), que coloquei no post anterior, vi em um filme, não me lembro qual – vou tentar localizar. Mas achei sensacional! O advogado de defesa falava isto, e depois o juri, quando estava discutindo o caso, repetia. Não é demais?

A Lys queria saber no que deu minha pesquisa sobre a parte histórica. Fica para o próximo post, que este já está por demais de grande.