Mulheres no universo do romance policialEm um universo preenchido por policiais que, pelo menos em relação à visão da novela, não são assim tão inteligentes e de detetives que são durões e que estão sempre à beira de passar os limites da lei, o Sam Spade, de O Falcão Maltês, revela uma característica do universo do romance noir e das histórias policiais, em particular: este é um mundo bem massculino.

Veja-se o caso d´O Falcão. Se há mulheres neles envolvidos, elas apenas dão colorido à trama. Uma, é Secretária – e embora não dito claramente, amante de Spade. Outra, casada, também é um dos casos do detetive. E a terceira, que tem maior destaque, acaba tendo um caso com ele.  Neste universo, as mulheres têm papel claro: são secundárias. No caso do livro, o que importa é o próprio Spade, em redor do qual a trama é construída.

Quem são os participantes: dois policiais, um promotor, outro detetive – que morre logo no início – e os que procuram o Falcão, todos homens. Se de início Brigit ganha um destaque maior é que suas falas vão contribuindo para desvendar a trama, mas a partir do surgimento do sr. G, ela fica, também, em papel secundário. E é este o papel destinado às mulheres que, direta ou indiretamente, participam da trama.

Machismo? Sim, não há dúvida. Mas temos de levar em conta a cultura da época. Quando o livro foi escrito, as mulheres tinham papel secundário, mesmo na sociedade dos Estados Unidos, onde a liberdade era maior. O Falcão Maltês, assim, reflete um momento cultural e, nele, as mulheres não estavam à frente das coisas, muito menos quando se trata de investigação policial, crime, assassinatos, etc.

A idéia que o livro passa – e que só deixa de existir em relação a Brigit, em um determinado momento – é que os homens precisam cuidar das mulheres, que precisam ser preservadas. Isso não os impede, no entanto, de transformá-las em objetos sexuais e, em seguida, as descartar, como acontece em relação a Iva e à própria Brigit. Mais uma vez, é uma questão de mentalidade.

A questão posta pelo livro e por Spade não mudou muito ao longo dos anos. Os detetives, em sua maioria, ainda são homens. Existem alguns casos, poucos, de mulheres cuidando de uma investigação, como acontece com Patrícia Highsmit. A prevalência dos homens é tão grande que Agatha Christie, uma das mestras do gênero, usou um detetive, Hercule Poirot, para construir as suas novelas.

O Falcão Maltês, no final, não cuida de um olhar sociológico sobre o crime, sobre os detetives e nem sobre sua época. Apenas, no meu entender, reconhece as coisas, mostrando que há crimes, roubos, tentativas de golpes e que eles podem envolver as mulheres, tanto quando os homens. Em um universo onde, para início de conversa, todos são culpados, não existe mocinho ou bandido. A circunstância é quem faz a situação.