“Ela lhe deu um pontapé na perna, o salto alto do seu sapato acertando-o bem por baixo do joelho. Dundy afastou Cairo enquanto o corpulento Tom se punha junto dela, rosnando: — Comporte-se, dona. Isso não são modos.” (O Falcão Maltês)

Falar sobre preconceito é sempre complicado. Afinal, os estereótipos e generalizações tem lá sua função: são bons atalhos para a construção de um cenário. Dá-se uma pista, e você já consegue desenhar o contexto. Mesmo tomando todos os cuidados, lá pelas tantas estou fazendo generalizações –O povo americano… Os brasileiros… É verdade que, muitas vezes a gente erra, e erra feio, ao deduzir algo por um detalhe. Que atire a primeira pedra quem já não se precipitou em uma conclusão e… precipitou-se mesmo, levando um tombo daqueles! O meu mais recente fora: numa longa fila, entra uma mulher vestindo uma bata soltinha, barrigão. E eu, solícita, pronta para ajudar –“Você não precisa ficar na fila, tem o caixa preferencial…”. Na mesma hora, senti o olhar fuzilante e quis desaparecer por um buraco no chão. Eu e minha boca…

victor na internet

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Sou o que digo e faço

O Álvaro, em seu post O bode expiatório, levanta uma questão interessante: será que um livro, será que os personagens, refletem sempre alguma faceta do autor? E se eu discordo, como devo agir? Não posso mais gostar de T. S. Eliot, que tanto amo, pois ele era anti-semita? Sou mesmo o que digo e faço? Ou minha personalidade é algo para além disso? Lembram do famoso caso do ator Victor Fasano, que em entrevista nas páginas amarelas da VEJA falou que gostaria de ter filhos com Maitê Proença, como medida de eugenia? Ah, o aprimoramento racial! O escândalo foi enorme e, apesar das muitas desculpas, a pulga fica atrás da orelha: será que ele não é mesmo uma pessoa com uma ligeira deformação de caráter, para falar o mínimo? Afinal, as palavras tem poder! Dashiell Hammett transparece em seus personagens ou não? Fiquei sabendo pelo Álvaro que o autor foi detetive: esta pista não pode ser ignorada. E como retrata o autor as mulheres?

maite na internet

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Mulheres, ah, as mulheres!

Manipuladoras, dissimuladas, usando a sedução para obter o que desejam, mesquinhas ou ingênuas… As personagens, tanto em papéis secundários ou principais – como a vilã – são desenhadas em contraponto com os homens. A Mercia tocou neste assunto das mulheres e eu vou comprar a briga. É claro que o uso de estereótipos não se restringe ao feminino: os policiais também são retratados como ineficientes, lerdos e mais atrapalham do que ajudam, como destaca o post O bode expiatório. Os homens de boa vontade dirão: é o contexto de época. Aleluia! Mas o período é marcado pela voz ativa de umaVirginia Woolf (A Room of One’s Own,1929 – mesmo ano em que foi fundada a Associação das Mulheres Universitárias, em Genebra). Não precisamos ir longe: dois antes, no Brasil, surgiam as primeiras leis tratando as questões da educação e das mulheres.

cloaca e arte

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Um tiro no politicamente correto

O problema é: apreciamos um livro, uma obra de arte, independente da postura política e das colocações do autor ou dos personagens? Como já discutimos aqui no Clube, afinal, pode-se “ler pelo simples prazer de ler”? Como é bom apreciar um história com início, meio e fim… Mas é bom também arregaçar as mangas e lutar para abolir as mensagens subliminares que formam os homens e mulheres de hoje e sempre. Só que dá um cansaço… O post Cloaca, a arte de-feca, tem um visão sobre o assunto que vale a pena (e eu fico em dúvida sobre como encarar este tipo de arte… Me ajudem!) Posso conviver em paz com estereótipos e preconceitos que atravessam séculos e mares? Não sei, não sei. Por vezes, o politicamente correto me irrita, pois que tira um pouco da graça da vida. No entanto, admiti-lo é admitir as limitações, as imperfeições humanas e jogar a toalha na luta por um mundo melhor e mais justo. A minha toalha, por enquanto, está suspensa no ar. Ethel Scliar