“A campainha do telefone tocou na escuridão. Depois de tocar três vezes, as molas da cama rangeram, uns dedos tatearam na madeira, alguma coisa pequena e dura caiu no chão atapetado, as molas rangeram de novo, e uma voz de homem disse: — Alô. . . Sim, ele mesmo. . . Morto? . .. Sim. . . Quinze minutos. Obrigado”.

Humphey Bogart, na pele de Sam Spade com o falcão maltêsSem rodeios e sem floreios, a linguagem de Dashiell Hammet nos leva, em O Falcão Maltês, direto ao ponto, como se pode ver no pequeno trecho acima. Não há descrição de ambiente, não se fala na cama e como ela é, tampouco se foca o quarto, a casa. O que interessa é a ação, que ganha toda a trama do livro, levando-nos diretamente ao ponto que interessa ao autor, que é a movimentação de Sam Spade e a construção de uma trama que nos surpreende a cada momento.

Outro aspecto que se pode destacar no livro é o número reduzido de personagens, todos eles diretamente envolvidos na trama. Não há uma série de atores que, de repente aparecem e também de repente somem. Veja-se o início: Spade, Effie, Brigit e vai por aí afora. Há os que morrem, como Archer, o sócio, mas há os que continuam, como os policiais. Aliás, eles são um caso a parte, fazendo papel de bobo com o detetive que não dá a mínima para o que pensam, mas não deixa de lado o instinto de sobrevivência, que o leva a salvar sua pele.

Uma coisa que surpreende, embora, como já destacado, não hava uma descrição da cena, são as situações de ruas em São Francisco. A trama é situada em ruas bem conhecidas e que, ainda hoje, têm o mesmo nome. É lógico que a cidade não é o mesmo, mas para quem a conhece, a trama ganha um gosto especial, pois identifica ruas, que são reais e por onde se pode passar, sentindo o desenvolvimento da novela.

Um outro aspecto que chama a atenção são que, no livro – o que já foi destacado aqui por outros participantes – não existem heróis. Tampouco não existem vilões. A conveniência da ação e a conveniência pessoal é que determina o comportamento. Pode-se ser correto e respeitador da lei, em um momento. E pode-se virar um cafajeste, em seguida. E é o que faz Spade. Em um drama moral, ele não teria, jamais, o comportamento que tem.

Por tudo isso, acho, é que o livro é para ser lido de um só fôlego. À medida que começamos, não mais queremos parar. E a cada capítulo, vamos nos surpreendendo com as reviravoltas que a trama ganha. E o final, hem? Sem dúvida, surpreendente. Principalmente se levarmos em conta o que os livros normalmente nos trazem. Mas isso é uma outra história e só vai ser contada mais adiante.