Como ainda estou no início do livro, vale começar refletindo o próprio romance policial enquanto gênero literário. Li muito pouco do Sherlock Holmes e menos ainda dos detetivescos norte-americanos. Minha especialidade neste gênero é mesmo a “rainha do crime”, Agatha Christie, da qual li mais da metade da obra. Entretanto, existem alguns elementos que surgem como similitudes entre os diversos autores.

O crítico literário argentino Ricardo Piglia, dos maiores da atualidade,

Divã de Sigmund Freud

Divã de Sigmund Freud

coloca uma questão interessante. Diz ele que há uma relação de semelhança profunda entre a psicanálise e o gênero policial. Ambos, o detetive e o analista, trabalham com pistas e sinais, visando interpretar algo que aconteceu e que ninguém sabe o que é.

A lei, em ambos os casos, existe justamente para preencher uma lacuna constitutiva. No caso do analisando, as formações narcísicas que dependem dos limites da lei para seu “auto-controle”; no caso da justiça do detetive, ele existe justamente porque a ‘lei oficial’ não funciona. Não é à toa que eles agem às escondidas.

Diria eu: ao contrário do que parece ao primeiro – e geralmente equivocado – olhar, o psicanalista e o detetive são dois foras-da-lei. Transitam pelos enigmas, por aquilo que não se encontra dito nas versões oficiais. A questão é que nem sempre o contrário da ‘lei’ é o ‘crime’… podemos estar na seara da ‘transgressão’. Transgressão de Poirot, quando des-cobre antes da Scotland Yard um crime complexo; e transgressão do analista, quando busca nas reverberações do inconsciente algo que não consta nas cartilhas da moda e do mundano, para incitar, no analisando, uma reflexão.

A angústia da guerra entre as defesas e as manifestações traumáticas e os perigos que o detetive enfrenta são ressonâncias desse parentesco. A versão, o verso grande que ambos procuram, está sempre alhures. E isso não deixa de ser um eco – no que concordo com o Piglia – da grande contribuição narrativa dos gregos, o surgimento da tragédia. O interpretador é sempre esse solitário, nos devaneios de seus monólogos, em busca do tempo e dos fatos perdidos.

E na canoa da perda, navegamos pelo rio do trágico, a procurar pistas…

Marcelo Henrique Marques de Souza