392488Vou recomendar a vocês a leitura de um livro para lá de bom: “O Gosto da Guerra”, de José Hamilton Ribeiro, pegando de certa forma carona no post abaixo e que fala de outra obra, “Deus é inocente, a imprensa não”. Confesso que não li este último. Mas vou procurar fazer isso, para ver até onde suas afirmações têm explicações e justificações realmente honestas.
Recordo-me de que, quando iniciei minha carreira no jornalismo, a Guerra do Vietnam ainda estava em curso mas se aproximava do fim. Tínhamos na redação do jornal onde eu trabalhava, duas agências de notícias: UPI e France Press. Quando havia uma grande batalha, tinha eu por hábito comparar os textos. Era inevitável: sempre morria mais vitcongs na UPI.
Bom, a Guerra do Vitnam é fato muito passado. Vamos ao presente: nos próximos dias, meses, o espaço de tempo que pretenderem, reparem nos nossos noticiários televisivos. Quando há um conflito no Oriente Médio, as ações dos palestinos são sempre “terroristas”. As dos israelenses, não. Mesmo quando eles bombardeiam áreas civis e matam crianças inocentes.
Isso não ocorre só no Oriente Médio. Acontece também em outras áreas. Chefes de Estado como Fidel Castro, Hugo Chavez, Evo Morales e outros, vez ou outra são retratados de forma caricata nos noticiários (não os estou defendendo). E isso por uma questão muito simples: os nossos aliados são bons, bem intencionados, dignos. Nossos “inimigos”, não.
É essa visão que distorce os fatos. Distorcia no passado, distorce hoje e vai distorcer no futuro. Trata-se de uma questão cultural. Embora tenhamos uma sociedade multi-racial – e, portanto, multi-cultural – ainda assim os muçulmanos são vistos por nós como algo estranho. E por serem estranhos, eles não são dignos de confiança. Já os israelenses são nossos aliados.
Durante a Guerra do Vietnam não se podia questionar o noticiário pró-Estados Unidos. Estávamos em uma ditadura militar – recordam-se? – e os EUA eram os aliados. Já os vietcongs representavam o comunismo que devíamos combater. E foi para ver essa realidade de perto que José Hamilton Ribeiro viajou para o Vietnam na qualidade de correspondente de guerra, pela revista Realidade. Seu livro é essa história, pois lá no Vietnam ele deixou uma das pernas depois de pisar em uma mina vietcong.
O jornalismo é um reflexo da sociedade. É parte dela e será sempre, basicamente, o espelho do que pensa sua maioria. Nunca se esqueçam disso. Foi por isso que os jornais de São Paulo cometeram o desatino de destruir várias vida de pessoas dignas no epísódio conhecido como “Escola de Base”. Os cidadãos paulistanos queriam que os abusadores de criancinhas fossem punidos. E eles foram punidos. Mesmo sem ser abusadores.
Como a construção da democracia – entendam esse conceito como bem entenderem – é obra que nunca termina, somos nós os responsáveis por tudo o que os meios de Comunicação divulgam. Fazer com que eles sejam a cada dia mais imparciais é trabalho de cada um dos cidadãos, incluindo aqueles que trabalham nas redações de jornais, rádios, TVs e sites de internet.
Ainda assim o mundo continuará sendo um ambiente de aliados e inimigos. Estamos longe de construir outra realidade. De modo que, atá lá, resta-nos filtrar informações. E para refletir um pouco sobre isso, lembro José Hamilton. A questão da informação, insisto, não é um problema de nível, de mediocridade. É um reflexo do que somos todos nós, indistintamente.

Álvaro José Silva