Mais três dicas da estante:

“A Troca Impossível” é um grande ensaio, sobre a questão da incerteza, do pensador francês Jean Baudrillard. A impossibilidade da troca é a fatalidade de todo sistema, a despeito das tentatibas fracassadas das grandes narrativas. Baudrillard nos leva ao extremo da linguagem, para colocar em xeque as verdades inocentes e as bulas pseudo-samaritanas que convergem, cinicamente, diante de nossos desejos mais escondidos. E há uma crítica ao problema da virtualidade que não deve passar em branco ao leitor atento. Trata-se de um dos três melhores ensaios que já li, sem sombra de dúvida. Tanto pelo tema, quanto pela estética do texto.

“Sobre a Modernidade” é um trabalho do pensador e poeta Charles Baudelaire, primeiro nome a fazer uma crítica efetiva sobre o ideário da modernidade. Interpretando alguns aspectos da vida e da obra do pintor Constantin Guys, de sua época, o poeta busca uma crítica radical do pensamento cosmopolita de seu tempo (o livro é de 1852), apontando para os mitos do transitório, já presentes, e para a necessidade de uma arte que buscasse sempre o universal, o eterno, sob as máscaras do fugídeo pré-moderno. Em outras palavras, podemos tirar de seu texto um olhar que enxergue o quanto o tempo moderno fecha os olhos para o passado, em prol de uma presentificação incessante e acrítica, que contribui, inevitavelmente, para o avanço da barbárie no mundo contemporâneo. Belo texto de um dos precursores do movimento simbolista, vanguarda crítica que deixou herança inestimável para as mentes que não se entregam.

E a última dica de hoje é o livro “Deus é Inocente, a Imprensa não”, do jornalista Carlos Dorneles. Apesar de não entrar a fundo no debate teórico, Dorneles mostra, neste trabalho, como as versões únicas sobre os conflitos do Oriente Médio capitaneados pelos norte-americanos no Iraque, no Afeganistão e na Palestina foram construídas pela mídia brasileira. Todos os grandes veículos de mídia, O Globo, JB, Folha de São Paulo, Rede Globo e cia ltda, compraram as informações das mesmas agências de notícias, todas européias e norte-americanas, intimamente ligadas ao discurso dos belicosos estadunidenses. Não houve uma cobertura efetiva das guerras, como mostra o autor. O que houve foi uma colagem de um lado só dos acontecimentos, totalmente parcial, a despeito da terceira pessoa utilizada nas reportagens. Serve, dentre outras coisas, para que se leia jornal com menos inocência.

Marcelo Henrique Marques de Souza