ivan_ilitch1Deixo aqui minha contribuição para essa seqüência de sugestões sobre literatura. E no caso, de um livro que li pela primeira vez aos 15 anos – creio – e reli na semana passada. Para ficar mais maravilhado ainda.
O Conde Leon Nikolaievitch Tolstoi (1828-1920) nasceu em família nobre. Conhecia as vicissitudes e as mazelas da nobreza como ninguém. Mas esse lado de seu talento não ocupou suas gigantescas obras de literatura. Ficou registrada em pouco menos de 100 páginas de texto daquela que é conhecida como a maior novela já escrita por alguém.
“A morte de Ivan Ilicht” conta a história de um magistrado. Com boa vida, bons relacionamentos, péssimo casamento, falsos amigos e sonhos fúteis. O homem que sempre precisa ganhar mais porque a cada salário aumentado aumenta com ele o nível de ostentação necessária a seu ego.
Um belo dia Ivan descobre que tem um mal. Teria sido ele provocado por um acedente doméstico? Por uma doença grave como o câncer? Não importa. A partir dessa constatação, o juiz descobre que agora será ele quem vai receber uma sentença. E essa sentença é dolorida.
Não se trata apenas da dor física do homem obrigado a tomar ópio para aplacar as dores, mas e do ser humano em frangalhos descobrindo a cada dia que passa, a cada página que o leitor consome, que todo o seu mundo torce mais por sua morte do que por sua vida. Afinal, a sua morte vai gerar lucros. A vida, ao contrário, só dará trabalho aos outros.
Há o magistrado que vai ser promovido, a viúva pensando em sua pensão, os filhos e seus sonhos pequeno-burgueses, o cunhado com impaciência pelo desenlace final e todos os próceres da medicina que pura e tão somente se recusam a dar a ele um veredito final. Uma sentença.
A morte de Ivan Ilicht acontece todos os dias. Em praticamente todas as sociedades. Ocorreu pela primeira vez, denunciada, por obra e graça do grande Tolstoi, no final do século XIX, mas continua se verificando hoje. Em outro juiz que morre, em um gerente de banco, em um médico, em um jornalista, em um comerciante, em um industrial, etc., etc.
Basta lera a novela e constatar isso. Nossa sociedade, sua estrutura, seus anseios e desejos foram todos moldados para esse fim. E Tolstoi conseguiu captar o drama dessa verdade num texto que se lê em três/quatro horas. Escrito magistralmente!