Inaugurando o “Livroscópio”, vão duas dicas, de dois gêneros diferentes: a teoria e a narrativa literária do romance. Antes, contudo, vale justificar e distingüir.

O século XX viu, na pele da lingüística e da semiologia, um cruzamento entre o texto literário e o teórico. E esse cruzamento se deu, ainda, no modo de operação do discurso que nasceu com o advento da psicanálise. Freud rompeu com a psicologia e buscou sua reflexão sobre a problemática humana nos mitos (Narciso e Édipo são os exemplos mais conhecidos) e na literatura (isso fica claro para quem lê o “Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen”, de seus principais trabalhos).

Podemos resumir a questão, afirmando que os teóricos perceberam que o ficcional atravessa a própria estrutura do discurso. A linguagem e o pensamento, em seus entrecruzamentos, volta-e-meia cristalizam-se em definições pretensiosas. Mas essa tendência é sempre deslocada, porque a coisa-ela-mesma nunca é atingida pelos signos que lhe constroem os cenários do sentido.

Nesse quadro, se consolida a figura do “ensaio”, que, como o nome já diz, é o tipo de texto que não busca conclusões em si mesmo. Abre brechas nas certezas, para que o leitor possa transitar sua reflexão para além do ponto final do texto.

Voltemos aos livros, então.

O primeiro é parte do projeto teórico do pensador alemão Sigmund Freud. Chama-se “O Mal-estar na Civilização”. O livro trata da forma como as formações narcísicas do indivíduo se relacionam com os ideais da civilização. O ego, para Freud, ao contrário do que geralmente se pensa, não é simplesmente o “Eu”; trata-se de uma estrutura ficcional, que nos captura, estrategicamente, numa espécie de “pretensão de eu”. Isso porque o discurso, estrutura responsável pelo surgimento da própria pretensão, é essencialmente impregnado pela história dos significados, que estão sempre além do sujeito.

Entretanto, esse “Eu”, como parte da pretensão, “se acha”. E é aí que entra a “civilização”, ou “cultura”: no intuito de barrar a individualidade reinante na formação narcísica (que, como o mito reflete, se apaixona por sua própria imagem), estabelece negações fundamentais, que figuram como leis ou limites para o sujeito pretensioso. É aí que entra o valor fundamental do “superego”. Para que ocorra possibilidade de civilização, portanto, é fundamental, argumenta Freud, que o ego vivencie um frequente “Mal-estar”. E o pensador alemão reflete essa questão trazendo-nos uma crítica bem fundamentada sobre o mandamento cristão do “Amai ao próximo como a ti mesmo”. A crítica freudiana relaciona o “ti mesmo” do mandamento com o caráter ambíguo do ego. Como termina a reflexão? Não perca a leitura, vale a pena.

O outro livro é narrativa literária clássica. Honoré de Balzac, grande escritor do realismo francês (bem contraditória essa classificação, mas enfim…), conta-nos a história de um escritor do interior da França, que decide partir para Paris, com o intuito de fazer sucesso com sua literatura. Chegando lá, ele percebe que a coisa não é tão fácil assim, e se vê obrigado a trabalhar com o jornalismo.

Além de ser uma interessante reflexão sobre o valor do escritor na sociedade, o romance nos traz um quadro bem honesto sobre o início da própria atividade jornalística. Ao contrário do que se pensa num primeiro olhar inocente, nunca existiu um jornalismo efetivamente ético, na medida em que o mesmo já nasce vinculado com os jogos do poder e das relações mercantis. Bela obra, além de extremamente madura para sua época. É a literatura, para além dos otimismos cegos.

Até a próxima.