Uma reflexão rápida sobre o valor estético dos grandes autores. Rosalia Garcia, em sua resenha sobre Virginia Woolf no livro “100 Autores que você precisa ler” (1ª foto), diz que a autora se destaca por desenvolver “um estilo próprio”, que transporta a linguagem poética para a narrativa de seus romances (p. 229). Um dos meus interesses enquanto pensador de literatura e de arte reside justamente no estatuto sobre o qual se debruça o valor da singularidade. Em outras palavras, o que pode estabelecer o adjetivo da criação para uma obra.

O “estilo próprio” é um desses pontos de análise. Mas o que define a especificidade de um estilo? Qual é o critério para que se destaque um autor dos demais, no que diz respeito ao formato de sua composição artística? Um dos principais pontos dessa encruzilhada, na minha leitura, reside na mitologia do otimismo. Uma das qualidades que equipara os grandes autores, e que os distingue dos demais, é esse olhar sempre desconfiado diante do ser humano. Um olhar que é atento ao processo histórico. E ao presente também. Até porque, ser desconfiado é mais difícil do que nunca hoje em dia, penso eu. A “felicidade” e o “prazer a curto prazo” viraram dogmas. Existe, inclusive, uma distinção importante entre “prazer” e “fruição”, que é significativa em relação à arte, principalmente.

E esse olhar deslocado do brilho, atento às sombras, à “vida como ela é”, como já profetizou Nelson Rodrigues, um dos nossos grandes, é um olhar que acaba sendo o de um aprofundamento ininterrupto do autor/artista, em relação ao quadro histórico que lhe circunda – e que lhe antecede e ultrapassa. O labirinto do qual faz parte. O grande autor não é aquele que pensa que encontrou a saída do labirinto. Até porque, ela só existe na inocência daqueles que acham que um grande livro tem, efetivamente, uma última página. O grande autor é aquele que descobre novas encruzilhadas. Novas perdas e novos impasses. Assim caminha a literatura.

A singularidade, portanto, não reside somente no “novo”. Mas, especialmente, na necessidade que todo novo tem de comportar, em sua enunciação, uma implosão discursiva. Ou seja, todo o processo histórico precisa comparecer, em crise, no exato momento em que uma obra se faz presente. E Virginia Woolf, em que pese toda a influência que assimilou de Joyce e da psicanálise, fez parte de um período de profundas crises estéticas, tanto na sociedade quanto no discurso literário (se é que podemos arriscar essa separação). Seus deslocamentos de ritmo e de tempo narrativo estavam em profunda sintonia com a crise do evolucionismo e do progresso como mitos sociais, em sua época. E isso é mais do que simplesmente o surgimento de um “estilo próprio”.

Se pensarmos no trajeto histórico do sujeito moderno, mergulhando em turbilhão na direção de seu próprio umbigo, de seu próprio afogamento, de Descartes às propagandas narcisistas, de Kant à literatura de auto-ajuda, podemos arriscar um possível gatilho: “estilo próprio” é o que menos se aproxima do estatuto da singularidade literária, nos dias de hoje. No mundo do falatório e do ego, é preciso muito mais do que mera novidade para se aferir o status da obra de arte.

Fiquemos, então, com os grandes. Com aqueles que preferem adentrar os confins do labirinto. Com aqueles que enfrentam a crise da linguagem, cavando novas sepulturas para o otimismo. Com esses que nos dizem, o tempo todo, que a verdade existe… mas que é sempre um ‘velamento’, um des-velamento. Que ela ‘revela’. Re-vela. Interessante essa palavra, “velar”. Tanto “vigiar o doente ou o defunto”, quanto “ocultar, tornar secreto”. E a linguagem é isso: um segredo oculto, a coisa-defunta que se escondeu por sob o véu das palavras. Hoje, o véu é o do livro como espetáculo, como hobby, como prazer. O artista é aquele que sorri, de soslaio, dessa mania pós-moderna de ter orgasmos com a obra. É esse que, na enunciação de sua criação, apaga a fortes sopros as velas (!!) da procissão da mesmice, re-velando, assim, a continuidade do segredo e do labirinto.

Marcelo Henrique Marques de Souza