“Um discurso é sempre adormecedor… exceto quando não o compreendemos. Então ele desperta. (…) É certo que só somos despertados quando o que se apresenta e representa é sem nenhuma espécie de sentido”.
Jacques Lacan

Quando conectamos a (i)lógica da manifestação poética com a questão da comunicação, abrem-se importantes frestas reflexivas. Uma das principais discussões geradas pela leitura de Virginia Woolf se liga ao fato discursivo dos chamados “fluxos de consciência”, que, podemos arriscar também, poderiam ser designados como mergulhos nas profundezas dos disfarces.

Dois pontos me parecem relevantes aqui: um, essa des-coberta da modernidade, a de que a “teia de compreensão”, como bem nomeou a Ethel, em um comentário de meu último texto, é a própria máscara de nossas vivências, invariavelmente a fuga que exercitamos em nossos medos diários, medos não só os “arrepiantes”, mas também aqueles que se escondem sob as vestes da passividade. E aí entra o segundo ponto.

Uma das mais sutis saídas que o poder encontrou na modernidade foi a febre otimistalóide dos chamados “meios de comunicação de massa”. A violência direta foi perdendo terreno no imaginário ocidental, dando lugar ao terreno mitológico da “liberdade de expressão”. Mas o discurso não vaga dessa maneira… A reverberação dos continuismos é a função da “teia”. O tempo não pára, e é-lhe preciso que continue a entranhar-se nos poros do que de repente escapa. Para auxiliar nesse trabalho, surge a tal “mídia”. Manutenção dos consensos e fermento do ego, mais uma das máscaras que vestem a crença nos totens da liberdade.

O linguísta Roman Jakobson (1ª foto), grande nome do estruturalismo russo, aponta que podemos analisar a função poética da linguagem pela via de uma dicotomia paradoxal: sincronia vs. diacronia. A sincronia preza a taxonomia, a circunscrição, o roteiro: busca, em seus rodeios, por uma sintaxe segura. E para isso, volta seus olhos para as pegadas. Para o que ressoa dos passos dados.

Entretanto, muitas pegadas são apagadas pelo vento. E muitas, ainda, os próprios donos dos pés eliminam, em sua ironia imprescindível. É onde entra a diacronia, o pé na frente da história, que faz tropeçarem as teias e as pretensas continuidades.

Isso pode ser articulado com a mitologia da comunicação, inclusive com a de massas. Se observarmos que a lógica que rege a construção das teias de compreensão nas mídias se pauta quase que fundamentalmente pela relação comercial, ou seja, pela lógica da relação produtor de informação/consumidor da mesma, veremos onde se fixa a fronteira contemporânea. Toda emissão precisa conter, inclusive estruturalmente, no que podemos chamar de sub-disfarces, o afago ao ego do receptor. É exatamente assim que caminha a propaganda. Mesmo a inserção aparentemente crítica precisa ostentar a máscara samaritana da sociedade da informação.

Max Ernst (pintor surrealista alemão)

Isso não elimina as barreiras. Apenas sufoca um pouco mais os poros das manifestações poéticas, em crise profunda no mundo atual. Mas não escapa do rombo inevitável que deixa de herança a arte moderna, inclusive a literária: a nudez de nossas fobias.

E é por motivos como este que não há mais retorno ou mesmo possibilidade de se pensar em um final da história para a confissão que a própria história faz através da pena da poética moderna. O portão está inevitavelmente escancarado. E toda pretensão de fechá-lo vai esbarrar seu olhar na presença da ausência que se enquadra do outro lado. Ou seja: como fechar a porta, se não há mais paredes?

Marcelo Henrique Marques de Souza