Foi num vôo entre Vitória e São Paulo. Havia comprado o romance “Do outro lado do rio, entre as árvores”, uma linda história de amor tardio escrita pelo magistral Ernest Hemingway. De página em página, o personagem principal preparava-se para viver seu derradeiro amor, ou então já o vivia, deliciando-se com garrafas de vinho Valpolicella Bolla.

Em São Paulo, não agüentei. Peguei um táxi e fui até o Centro da cidade. Lá, no Depósito Normal (juro que o nome era ou ainda é esse mesmo), descobri a bebida em meio a centenas de outras. Um belo tinto da região de Veneza. Li o restante do livro bebericando o Bolla.

Na última parte de Mrs. Dalloway, os convivas da festa de Clarissa deliciam-se bebendo Tócai (no livro traduzido por Mário Quintana, o nome é escrito assim, com o acento, que não existe mais atualmente). Não consegui encontrar o vinho em Vitória. Mas foram-me prometidas algumas garrafas em uma loja que vende exclusivamente vinhos. Devo receber duas ou três dessas garrafas de “Tocai Friulano” (esse aí ao lado) em uma semana, no máximo. Aí relei novamente a última parte da história de Virginia Woolf, o relato da festa, tentando penetrar mais ainda no clima do rega-bofe, ao sabor do Tocai.

Só os bons livros, aqueles que nos tocam, são capazes disso. De nos fazer literalmente “entrar” na história, experimentando algo de que ela fala. Coincidentemente, tanto no caso de Hemingway quanto no de Woolf, estamos falando de vinhos (no caso de Virginia, apenas de passagem, claro. É que Hemingway bebia todos os dias). E de vinhos italianos. E ambos de Veneza, embora essa casta seja produzida também na Argentina.

A festa de Clarissa é a apoteose de Mrs. Dalloway. No texto magistral, na incrível capacidade que Virginia Woolf tinha de narrar, ela desnuda seus personagens. O mundano da festa, as conversas, os comentários, as intrigas, as invejas (muitas), as admirações (poucas) e a conclusão final de Peter Walsh sobre a origem e a intensidade de seu êxtase, de sua excitação, fecham com chave de ouro uma história que, se não tivesse sido criada por um dos gênios da literatura mundial, teria sido um simples relato sem graça de uma família, uma cidade, um grupo de pessoas, uma festinha qualquer.

Há momentos brilhantes no romance. Como a de Clarissa Dalloway escoltando o Primeiro Ministro pelos salões da residência, em direção à saída, volteando seu vestido, prendendo-o aos das outras senhoras, sorrindo, pontificando dentro das fronteiras largas de seu reinado de noite de festa. “Mas a idade a atingira; e, tal uma sereia, podia contemplar no seu espelho um claro por do sol por sobre as águas”. Brilhante!

Clarissa precisava encontrar tempo para todos. E também, porque era inevitável no mundo aristocrático da Londres de 1918/1920, para voltar seu pensamento até mesmo para a Srta. Kilman. “Kilman, a sua inimiga”. Como encontrar tempo para isso numa hora como aquela? É próprio da personalidade humana, das pessoas. E Virginia retratou isso na hora, no momento certo. No melhor ponto de seu relato, de sua história.

Conversei, sábado último, com dois professores de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e ambos, conhecedores de toda a obra de Woolf – o que não é meu caso –, concordaram em que Mrs. Dalloway não é o melhor romance da escritora inglesa. Mas concordaram também com outro ponto importante: no caso dela, é tão pequena a distância entre “melhor” e “pior” que não vale julgar. São conceitos pobres no caso.

Defino esse livro como o entendo: um retrato. Pronto e acabado. Em parte da própria autora, com suas crises existenciais e vida atribulada que inevitavelmente levou às páginas das obras escritas por ela. Em parte de seu país, de sua época, de sua gente, de sua cultura e do momento histórico pelo qual a Inglaterra passava, no hiato de 21 anos entre uma guerra mundial e outra, vivendo o apogeu de um tempo distanciado da realidade.

Sim, porque enquanto a aristocracia inglesa tanto se divertia – e o mesmo acontecia com a norte-americana –, como mostra Woolf, naqueles anos 1920, o mundo se debatia em uma incrível recessão pós-guerra que gerou miséria pelo mundo afora, inclusive e principalmente na Europa, com foco especial na derrotada Alemanha. Quem já leu “Berlim Alexanderplatz” ou então viu “O ovo da serpente”, conhece o final dessa história.

Mas, voltando ao retrato, ele é também da frivolidade. Porque o frívolo das sociedades humanas vivia na Inglaterra do início do Século XX da mesma forma que vive nas sociedades desse início de Século XXI, quase cem anos depois. Mas se confronta, se podemos dizer assim, com o que de mais recôndito os sentimentos humanos carregam com os homens e as mulheres. Não fosse assim e Peter Walsh se levantaria com facilidade para ir embora.