Um dos recursos utilizados com frequência no Romance é o das metáforas e comparações. Recurso do qual faz uso constantemente Virgínia Woolf, em seu Mrs. Dalloway. Existem metáforas surpreendentes e metáforas banais. As primeiras são momentos de criação na linguagem, enquanto que as segundas servem, quase sempre, para fins pedagógicos, ou para manter algum tipo de discurso com o mesmo sentido. Nesse segundo caso, reside uma das mais profícuas áreas de discussão da teoria literária, da semiologia e da arte em geral, sendo, portanto, tema fundamental para refletir a sociedade e o Homem, esse ser que nasce no século XVII.

Se nos ativermos ao sentido pedagógico do termo, teremos que a metáfora é uma figuração que consiste em substituir o sentido natural de uma palavra, expressão ou cena por outra que crie, em conexão com a anterior, uma relação de semelhança. Esse é o sentido do dicionário. Entretanto, o dicionário é, como nos diz o Roland Barthes, o que nos lembra de nosso privilégio, mas também de nossa prisão. Por isso, é fundamental tomar cuidado com o totemismo enciclopédico que pode resultar da leitura do sentido comum.

Uma pista do que quero pensar por aqui está justamente em refletir essa expressão do dicionário, quando ele define algo como um sentido natural. A palavra “natural” talvez seja o principal simulacro do discurso linear, e é importante falar a respeito. E o próprio dicionário nos dá a resposta quando, em uma de suas definições, nos diz que “natural” é aquilo “em que não há trabalho ou intervenção do homem”. Para o mesmo dicionário, “sentido” nos leva à “acepção”, “significação”. O significado, de novo segundo Roland Barthes, não seria uma “coisa”, mas uma representação psíquica da “coisa”. Portanto, se há sempre uma representação em jogo, no que tange ao sentido, a expressão “sentido natural” se mostra um paradoxo inescapável. Não há sentido sem o homem. Além do que, mais um paradoxo, “natural” não é mais que outro sentido…

Desde expressões mais simples, como “fonte de lágrimas” (p. 17), como em outras mais elaboradas, quando comenta sobre “sentir aqueles cascos nas profundezas dessa floresta cheia de folhas, a alma” (p. 19), Virgínia Woolf usa e abusa das metáforas e comparações. Quando “o rosto se franze numa interrogação” (p. 21), a metáfora está presente; quando “o rumor se acumula nas veias e faz vibrar os nervos” (p. 25), idem.

O escritor argentino Jorge Luis Borges cita um poeta, seu conterrâneo, chamado Lugones, que teria dito, em 1909, uma frase que eu acho das mais belas e coerentes: “toda palavra é uma metáfora morta”. Assim, reflete Borges, “podemos ser levados a pensar: por que diabos os poetas pelo mundo afora, e pelos tempos afora, haveriam de usar as mesmas metáforas surradas quando há tantas combinações possíveis?”. Completaria eu: mais ainda, quando há tantas combinações impossíveis?

“A linguagem e a vida são uma coisa só”, nos lembra Guimarães Rosa. E a vida não é uma coisa simples, mesmo que haja essa balela contemporânea de tudo simplificar, para “melhor” entender. “É preciso eliminar o propósito de todas as pontes”, como diz Fernando Pessoa. Porque o propósito da ponte é criar a passagem segura de um sentido ao outro. Só entendemos melhor quando adentramos a correnteza da complexidade. E talvez seja essa uma reflexão possível sobre as causas do uso incessante das metáforas entre os grandes autores. Uma fuga da ilusão sutil da segurança. Tentar enxergar as “outras faces” que se escondem atrás das certezas. Reler os próprios equívocos. Porque há uma dignidade nas derrotas que é impossível nas vitórias, como lembra Borges.

A outra face das palavras é sempre uma nova máscara, se sacarmos a profundidade da frase de Lugones. E é por isso que me agradam as metáforas impossíveis. Aquelas que ainda não haviam sido ditas. Aquelas que meu repertório ainda não havia arquivado em algum canto de passividade.

Metáfora não é só criar semelhança entre palavras até então não-conectadas; é, também, o que mostra, quando expressivamente nova, a impossibilidade-de-conexão-ela-mesma. O que vemos em determinados trechos de Mrs. Dalloway. Quando Virgínia “se perde”, quando transita na derrota do sentido. E escrever é isso. Penso assim por que, como Barthes, “escrevo porque não quero as palavras que encontro”. Quero mais máscaras, mais faces outras, mais das combinações impossíveis…

Marcelo Henrique Marques de Souza