Mrs. Dalloway rodeou-me por todos os lados. À minha frente, o livro perdido na prateleira, que finalmente apareceu (como não o vi?). Ao seu lado, outra edição, de minha cunhada. E mais uma, de meu sobrinho. E outra mais – que surgiu repentinamente. De quem seria mesmo? Ah, sim! Já sei: de uma grande amiga. Fico com aquele que sempre esteve ao meu lado. É uma edição antiga, de 1946, aquela traduzida por Mário Quintana. Muitos parágrafos marcados a lápis – o livro pertenceu à minha tia, musicista, que se suicidou. Fico mais entretida em decifrar as passagens marcadas, uma memória quase apagada de alguém que, como Virginia Woolf, como Septimus, um dos personagens do livro, também se matou. A história segue em um fluxo de pensamentos, que tenho dificuldade em acompanhar. Levei tempo para vencer as 258 páginas do livro. Mas isto já é historia para o próximo post. Releio o primeiro parágrafo marcado por minha tia Esther:


“Sentia-se muito jovem; e ao mesmo tempo indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo, ficava de fora,olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. “


Não é estranho? O livro já abre com esta visão interna, pessimista e desalentadora –e para quem lê,quase umas profecia auto realizável. Minha tia marcou este trecho, embora só viesse a se suicidar 3 décadas depois. Dizem que, nos sonhos, todos os personagens refletem o próprio sonhador. Talvez, na literatura, também ocorra o mesmo e possamos ver os pensamentos de Virginia Woolf através de seus vários personagens, sendo Septimus o suicida no qual Virginia se transformaria.
O que leva uma pessoa a se suicidar? Não sei, não sei. Tem um estudo muito interessante de Durkhein sobre o suicídio, do ponto de vista social. Ele mostra que as taxas de suicídio permanecem estáveis durante largos períodos de tempo, quase como se fosse uma característica dos agrupamentos humanos. Só que do ponto de vista individual (como ele mesmo coloca) o que isto importa? Taxas, números, explicações? Nada, absolutamente nada. Esta sensação de desconforto, de isolamento, de in-comunicação total parece marcar cada suicídio. Minha mãe comentava que a velhice é uma das fases mais solitárias da vida, de maior angustia. Discordo. Creio que os jovens (e são tão altas as taxas de suicídio entre os jovens!) são os que se sentem mais desalojados do seu tempo, do seu espaço e do seu corpo. Um sentido de impermanência, que Mrs. Dalloway retrata neste período de pós-guerra e esperanças desfeitas. Ethel Scliar Cabral