Mércia, no seu artigo anterior ao meu, comenta Virginia Woolf, ainda tateando em seu inglês erudito, mas sem deixar de enaltecer-lhe o estilo peculiar. Marcado, em Mrs. Halloway, sobretudo pelos pormenores narrativos que dão um caráter de quase conhecimento, por parte dos leitores, em relação aos personagens. Que são sempre muito ricos e praticamente unidos, como em uma simbiose, à cidade de Londres do pós-I Guerra Mundial.
Haveria uma espécie de genética do escritor? Se há, vamos considerar Virginia Woolf como um produto pronto e acabado dela. Afinal, a nossa autora nasceu em Londres, em 1882, e em meio a ambiente letrado. Era a terceira filha do casal Leslie e Julia Stephen (ele, um crítico de literatura e ela, a a herdeira da editora Duckworth). Impossível negar a influência desse ambiente crítico na vida dela. Desde criança, começou a se expressar pela escrita, através de cartas aos pais ou redigindo a sua primeira crítica literária, aos nove anos. Caramba, que precocidade! E foi este o início do caminho de Virginia, que a levou à condição de romancista, crítica literária e ensaísta.
Segundo os estudiosos de sua obra, “Woolf foi a escritora que alterou os rumos da narrativa literária no século XX”. E isso não é pouco. A contribuição que a autora deu para esta forma de arte foi na capacidade que tinha de controlar a escrita, penetrar na psicologia e mente de personagens. Em seus livros, se encontram elementos de escrita séria e momentos em que ela se deixa levar pelo humor. Ao mesmo tempo, ultrapassou barreiras ao se impor o compromisso de fazer experimentos de forma e conteúdo nos seus livros e ao revelar a alma feminina dentro de um campo no qual predominavam pontos de vista masculinos. Isso a fez ser conhecida como uma das primeiras escritoras a abordar temáticas puramente feministas.
Ela integrou o grupo Bloomsbury, com origem em reunião informal entre recém-formados da Universidade de Cambridge (dentre os quais estava Thoby Stephen, seu irmão). Evoluiu até ser efetivamente criado, em 1904, por um grupo de pessoas que formavam uma vanguarda intelectual. Destacavam-se, dentre outros, a pintora Vanessa Bell (irmã de Virginia Woolf), o crítico de arte Clive Bell, o economista John Maynard Keynes, o historiador Lytton Strachey, a poeta Vita Sackville-West e o romancista E. M. Forster. Pessoas que estavam em busca da honestidade intelectual, verdade e um ambiente livre de idéias e costumes. Fugiam de qualquer convenção da sociedade.
Virginia Woolf foi uma escritora tão à frente de seu tempo que, até hoje, aspirantes a autores se reúnem, anualmente, na cidade de Charleston (local que foi a residência da irmã de Virginia, Vanessa Bell), para estudar seus métodos e suas obras. Como um elemento de curiosidade, uma dessas pessoas foi o escritor Michael Cunningham. Com “As Horas”, homenageou a vida e obra de Woolf e fez com que tantas outras pessoas se interessassem por ela.
Infelizmente, suas diversas crises depressivas, dizem a maioria nascidas de desilusões amorosas, a levaram ao suicídio. Isso numa idade na qual as pessoas começam a ingressar na maturidade intelectual. Mas como dizem que os grandes escritores nunca deixam nada a ser dito, a obra dela a completa ou complementa. Semana que vem falo especificamente sobre o livro que estamos lendo e do qual restam para mim poucas páginas a completar.