Creio que o Lino utilizou o termo correto para definir o texto de Virginia Woolf em Mrs. Dalloway: aristocrático. Realmente não se trata de uma história envolvendo a alta aristocracia britânica do início do Século XX, aquela formada pelos lordes, os que tinham acesso à realeza, mas foca a alta burguesia sem títulos honoríficos, a que indiretamente se beneficiava da estrutura de Estado e da economia geradas pela monarquia inglesa, essa que vive até hoje à sombra da Torre de Londres, herdeira de suas histórias, suas tradições.
Os personagens formam um quadro fechado desse universo. Peter Walsh ainda revive o passado no qual sonhou com sua Clarissa, mas a realidade de 1918, às vésperas da festa a ser dada na casa dos Dalloway, é que ele talvez seja obrigado a pedir trabalho justamente ao marido de sua amada. Problema nenhum, já que ele próprio julga “o outro” um pessoa cordata.
À medida em o texto de Woolf avança, seus personagens vão ganhando força. Vão tendo contornos. Parece até possível vê-los em sua roupagem de então, e lá se vão 90 anos, como se por ventura tivessem existido. Mas são personagens de ficção, saídos da criatividade da escritora e nascidos, em parte, de experiências que ela própria viveu em seus primeiros anos.
A literatura tem identidade própria. Carrega dentro de si uma parcela grande da cultura de onde nasceu. Quem não vê, por exemplo, em Sherlock Holmes o típico investigador inglês? Ele parece ter sido retirado por Arthur Conan Doyle do melhor que poderia ter sido gerado nos laboratórios da Scotland Yard. Ele e, claro, seu fiel amigo, Dr. Watson.
Virginia Woolf é um outro lado da literatura britânica. Seu texto não provoca o leitor a descobrir se dessa vez o assassino foi mesmo o mordomo, mas transporta consigo aquela carga de emoção que somente os ótimos romances podem transportar. Isso tudo, é claro, mais uma vez como lembrou Lino, aristocraticamente. E com o que de melhor há no termo.