Se sobre Machado de Assis disse que O Alienista embora fale de uma época tinha problemas que podiam extrapolar o tempo, sendo trazidos para os dias atuais e mantendo a discussão atual, vejo Mrs. Dalloway de uma outra forma. Acho, pelo que li até agora, que Vifgínia Wolf traça, e bem, o retrato de uma época na Inglaterra, o início do século XX, logo após o final da Primeira Guerra Mundial.

Não é exatamente uma visão da nobreza, já que se sentra em pesssoas que não têm títulos nobres, mas que gravitam em torno do poder. São os “comuns”, mas não o povo. São, todos eles, aristocratas, refinados nos costumes, fúteis em alguns casos, capazes de fazer tudo para manter as aparências e trabalhar em conjunto para a preservação de alguns princípios.

Neste universo, as mulheres, mesmo poderosas, ficam em casa. E os homens é que trabalham, mas em um ritmo longe de ser o atual, com tempo para caminhada a pé e almoços e jantares de convivência. Bem diferente dos dias de hoje, quando as mulheres estão totalmente inseridas no mercado de trabalho, inclusive na Inglaterra. Existe ainda, de fato, uma aristocracia, mas ela mais e mais se assemelha ao grosso dos mortais, somente se preservando a diferença da família real.

Mrs. Wolf, na verdade, traça um retrato meio que impiedoso dessa sociedade, que é fútil, que só pensa nela própria, que gira em torno do próprio umbigo e que se excita com a possibilidade da presença da realeza. O povo, o real povo, até agora só frequentou o livro através de alguns lapsos, com a crítica contudente da empregada de Mrs. Dalloway ou a loucura de Septimus.

O livro é surpreendente pela sua linguagem e construção, com as cenas seguindo-se, sem separação, e com uma estrutura de narração diferente, que mistura reflexão e diálogos, mas sem adotar a estrutura dois dois. Não é uma leitura muito fácil, mas à medida que nos acostumamos com ele, vai se tornando prazeiroso, exatamente por nos dar uma boa mostra de como era, se não toda, pelo menos parte da sociedade inglesa.