Virginia Wolff escreveu um romance que vai demonstrando, aos poucos, o quanto o tempo é maleável. A maneira como ela trabalha os detalhes, maneira própria do romance, chama a atenção para dois pontos antagônicos, porém não excludentes, dos pormenores: um deles é o quanto a minúcia nos leva a defrontar com o silêncio do que é descrito; e o segundo ponto é a evidente histeria da mesma microscopia.

Trecho gostoso: “Começaram imediatamente a circular rumores (…) passando invisíveis, inaudíveis, como uma nuvem rápida a velar colinas, tombando efetivamente, com algo da súbita gravidade e do silêncio de uma nuvem, sobre faces que um segundo antes estavam completamente desprevenidas. Mas agora o mistério os havia roçado com a sua asa (…)” (pp. 20-21).

O detalhe parece ser uma das tônicas do grande romance. E, mais ainda, o detalhamento efetivo, aquele que se dá pela via das metáforas mais impressionantes, que encostam a aura no silêncio das coisas. A coisa está sempre ali, página em branco. Pedindo, suplicando, sedutora, um nome. Que a feche, como um rio que congela. Que não permita o deslizamento. E só os grandes escritores escapam do feitiço da definição. Porque percebem que cada nome que vinga é um novo epitáfio. O que os leva sempre de volta ao silêncio…

Por outro lado, o microscópio do romance aponta para outro ponto. Aquele afã bem moderno, de dividir os todos no maior número de partes possível, até esgotá-los na pretensão. É o princípio do discurso, de que fala Foucault: fazer falar, para melhor disciplinar o aleatório. Cada átomo que ganha fronteiras é uma explosão a menos no teatro da linguagem. E é disso que a literatura precisa sempre escapar, sob pena de suicídio: se o aleatório não preenche o silêncio, é o mito linear que dá sua gargalhada…

Se há uma escuta para a boa literatura, essa é a escuta desprevenida. Aquela que vaga na espera da coisa, cheia – ela-escuta – do silêncio dos detalhes que não definem.

O tempo dos detalhes do romance é sempre diferente. As coisas e acontecimentos se apresentam a nossos olhos com o compasso do transitório. Cada pormenor é um rumor que flerta com o silêncio.

E essa ambigüidade, constituinte da história do romance moderno, é um bom quadro da própria angústia humana diante do mistério e de suas asas. As palavras, as coisas e o tempo, quasares da mente, que enviam nada mais que choques. E ficamos, como Mrs. Dalloway, “com a perpétua sensação (…) de estar fora, sozinho e longe no meio do mar” (p. 16).

O relógio freia em cada minúcia que a pena da escritora exercita. E isso assemelha a narrativa ao tempo-como-ele-é, ou seja: curvo. Mais uma vez me lembro de uma brilhante do Quintana: “Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem ambas na casa do presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e a outra, na do Futuro. Quanto ao presente – ah! – esse nunca está em casa”.

O detalhe, quando escapa da histeria, é esse sem-teto que nos permite o gozo do imprevisível. Como a memória, que nos prega peças o tempo todo, lá de trás. Por qual passado seremos ultra-passados no próximo flerte?

E o tique-taque do romance continua roçando suas asas em nossas prevenções… Como “um desses espectros com quem lutamos nos pesadelos”…

Marcelo Henrique Marques de Souza