Em busca do livro perdido de Virginia Woolf (e não do tempo perdido…), começo a descobrir várias coincidências e a profundidade da minha ignorância.
– Mas sabias que ela se suicidou?
Não, não sabia.
– Mas que ela era judia, isto tu sabias, certo?
Não, também não sabia.
– E as questões da identidade sexual, do casamento aberto, das viagens em que ela e o marido podiam ter os casos que quisessem?
Lamento, também não sabia…
É sempre bom ouvir histórias com o sabor do relato oral, no tom corriqueiro e descompromissado, diferente dos compêndios que trazem as biografias em letras retas.
Pois foi assim que fiquei sabendo que um dos maiores medos de Virgínia Woolf era ficar louca. Achei curioso – porque são dois temas que já abordamos aqui (medos & loucura), então parece até que a trilogia se fecha, com uma autora cujo medo era ficar louca. Fazia análise, e disse para sua analista que, quando a loucura surgisse incontrolável, então se mataria. E assim fez. Ao perceber que já não era senhora de sua razão (seremos, algum dia?), encheu os bolsos com pedras e caminhou pelo mar, rumo ao infinito.
Em flash back, fiquei sabendo que antes disso, muito antes, mamãe visitou a casa onde se reunia com os amigos para estudar a Teoria de Einstein. Mamãe, em Londres, hospedou-se em uma pensão (bed & breakfast) que ficava bem em frente a casa o grupo se encontrava. Claro que foi visitar! E lá, entre papéis e memórias, Virginia se revelou, fascinada que era pela Teoria de Einstein. Foi ela a primeira a transpor, para a literatura, os desdobramentos da Teoria da Relatividade e seus desdobramentos: a importância do observador na percepção do tempo e do espaço. Quem diria que a Física se transmuta em Arte! Pois isto é para dar um ponto final na eterna divisão de ciências exatas e humanas. Pois então, termino compartilhando com vocês o poema de Leonor. É um soneto, cuja construção segue regras muito explicitas, complicadas e matemática. Olha de novo o entroncamento exatas humana! Ethel Scliar Cabral.

VIRGÍNIA WOOLF

As solas nas passadas desmancharam
os montes de cascalho das veredas
e a fim de que jamais na alameda
a trilha se apagasse das que amaram

e perdurasse imóvel sua passagem,
Virgínia os recolheu e pôs no bolso:
“- Pedras e pesos, carreguem-me o torso
para o fundo das águas na voragem,

longe do farol, anônima.
Os dedos leves pesem sobre o diário
para que ninguém desvende o rosário

de meu prazer e dores mais secretos
e qual mata-borrão os meus segredos
se dissolvam no leito das anêmonas.”

Leonor Scliar-Cabral