O pintor belga René Magritte transcendeu o movimento surrealista, ao qual é sempre vinculado. Criou na borda das vanguardas, sem se filiar a nenhum grupo, escola ou movimento. Como coloca Carolina Junqueira dos Santos, “reinventou a maneira de olhar os objetos, desmascarou a traição dos sistemas de representação e subverteu a noção habitual da cartilha escolar”.

Magritte pintou, na década de 40, uma série de quadros para a qual deu o nome de “A Condição Humana” (alguns deles aqui reproduzidos). Não cabe definir as imagens, sob pena de cair justamente na armadilha que as mesmas denunciam. Cada olhar que se engane por si mesmo… Mas algo deve ser dito, por que aqui é o não-lugar de um texto.

Leitura possível é dizer que o real faltoso engole a linguagem em suas pretensões. Pretensões de atingir um nível seguro de semelhança entre o olho e o visado. A condição humana é representar. E Magritte esfrega em nossa cara o enigma da representação. Nos mostra que a condição, o estado, o modo de ser do humano é correr na (b)esteira da ilusão da cópia…

Mas o que é que, exatamente, “copia”? As palavras e o olhar. As palavras, procuram dizer o indizível. E o olhar, lança um ponto de luz sobre a sombra das coisas – o que, como bem mostra o belga, só faz aumentar a densidade da sombra… Lacan co-loca, em seu 11º seminário, que, antes de qualquer olho, há um ‘olhar’, um ponto de onde se “vê”. Mas o que se vê, ora? Mais uma vez podemos tentar em Magritte: algo que se impõe como um fracionamento. Algo que não troca com o real. Algo da ordem da vertigem…

Não há linguagem e não há olhar que não sejam expectativas de semelhança. Acreditamos, pretenciosamente, no efeito de verdade que eles criam. E por isso há sempre um problema de crença em jogo.  Mesmo quando cremos na crença do descrer, como lembra o Millôr. “As palavras nunca são loucas (no máximo perversas)”, é o que diz Roland Barthes.

Ora, mas não é a loucura o estatuto desse ser tão humano?.. Sim, e é exatamente disso que a linguagem tenta, em [um] vão, correr: do Vazio constitutivo, para além das pretensões… Toda verdade é uma farsa sangrenta, que incide sobre o real. Toda verdade é, portanto, incidente. Ou seja: sobrevém. É uma circunstância acidental. A palavra e o olhar são, “na verdade”, um acidente.

Há como escapar desse labirinto? Não. É exatamente isso que nos diz o sorriso irônico de caras como Magritte e Machado. A condição humana é uma eterna encruzilhada. No fundo, no fundo, a história é uma sucessão ininterrupta de vertigens. “Não é possível”, dirão alguns.. Estão certos: não é mesmo. Todo ponto “final”, incluindo as definições, é uma abdicação. Ou, melhor ainda.. uma ab-dicção. É a pretensão de uma captura. Mas não há dia da caça nesse labirinto. Não há saída.

Entretanto.. dá pra perfurar algumas paredes. Por que, como bem co-loca Emil Cioran, “só a aspiração ao Vazio nos preserva desse exercício aviltante que é o ato de crer”. Paredes que caem em cada quadro da série de Magritte; em cada reflexão sobre a angústia do Bacamarte; em cada palavra e em cada olhar que se pretendam o Vazio de uma poética.

Por tudo isso, a-pague (não compre) esse texto e escreva de novo.

Marcelo Henrique Marques de Souza