Bem, tema proposto, tema posto, agora postar meu último comentário. Difícil. O que eu tinha pensado mesmo, ao colocar tal tema? No final, ficamos com a loucura como nossa condição tão humana. Muito interessante. O que me lembra que loucura é um dos meus maiores medos, tema proposto pela Dani. O que me leva a dizer que esta semana vi um livro e comprei: Você tem medo de quê? Fobias modernas. Por causa dos nossos bate-papos aqui no clube. Você sabia o que é canusofobia? E facipsofobia? Manepostofobia? Vertafundefobia (esta eu tenho)? O que me faz lembrar que é muito bom estar aqui, no clube, porque penso coisas que de outra fora não pensaria. Leio livros que não leria. Conheço gentes que talvez nunca conheceria. Escrevo, toda semana, me agarrando nesta tabua que me impede de submergir, porque assumi este compromisso. Sim, é bom estar aqui – loucuras a parte. Porque todo este intrincado pensamento desencadeante, de livre associações, que me faz pular de um assunto a outro, estes pensamentos que não param e não se aquietam, sim, talvez esta seja a minha pontinha de loucura (entre tantas outras).

Enfiando os pés pelas mãos

A escolher nossa condição tão humana, fiz uma associação, discreta e íntima, com Fukuyama, o super criticado autor do livro “O Fim da História” e do “Nosso futuro pós-humano”. Contrapondo com pós-humano, coloquei o tão humana. Também gosto da sonoridade da frase… Tem lá sua melodia. Pois li Fukuyama e amei. E usei como um dos autores principais, ao lado de Foucault e Boaventura de Sousa Santos, no meu mestrado. Então aconteceu o desastre: na banca de qualificação começaram a me perguntar como eu ousava colocar os três juntos. – Fukuyama é de direita!, clamavam os doutos senhores à minha frente. -Foucault e Boaventura são de esquerda!,gritavam ainda mais forte os senhores fuzilantes. – Não pode misturar duas ideologias em uma mesma tese! Pecado mortal da ciência!, concluíram enfáticos. Eu me vi escorregando pelo chão que se abria aos meus pés, direto para o inferno das pessoas sem noção histórica e ideológica.

Mea culpa

Confesso: nem por um minuto me passou pela cabeça que Fukuyama era de direita. Li e reli o livros. Continuei gostando. E cometi a loucura de deixar os três casadinhos. Bom, fui aprovada, embora o departamento onde defendi (em peso marxista), até hoje não engula muito Fukuyama. Eu virei fã de carteirinha, já é meu amigo de infância! Assim, via Clube, acabei fazendo esta ligeira e secreta homenagem, inversa, a ele. Mas o assunto sempre me fascinou. Acho que começou lá no ginásio (sou do tempo do ginásio), com um livrinho chamado A origem da vida, de um prêmio Nobel que agora não lembro o nome. O livro começa por tentar definir o que é vida e o que não é. Fácil, certo? Pedra, por exemplo, não tem vida. Gato, cachorro, árvore, eu e você – tudo isto tem vida. Parece instintivo: a gente imediatamente reconhece o que é vida ou não. Mas não dá para fazer definições com exemplos. Então, o autor propõe uma experiência: imaginar que um ser de outro planeta chega à Terra, e precisa saber o que é vida e o que não é, com seu programa de computador – por mais que esta vida seja diferente e estranha (o assunto é importante para nós, nas buscas interplanetarias! A Lys pode opinar melhor sobre isto). E ai começa a confusão, porque existem poucos parâmetros para definir vida. No final ele fica com três, mas não vou me aprofundar nisto, ou não acabo nunca este post. Ou será que meu interesse começou antes, no primário? Sim, além do ginásio, também sou da geração primário (para quem não sabe, o equivalente ao ensino fundamental). Meus coleguinhas – que gentis! que amados! – achavam que eu vinha de Marte… Poxa, podiam pelo menos pensar em Vênus, me sentiria mais feminina. Mas isto já é outra história, que vou deixar de lado, porque se não volto ao início deste post: emendar um assunto no outro, e nunca acabar… Loucura. Onde eu estava mesmo? Fukuyama. Mas antes de Fukuyama? Nossas loucuras, que nos fazem tão humanos.

Loucuras inexplicáveis

A loucura nos põem no patamar do estranhamento: quem é este outro, que age, que faz algo que não entendo, que não aceito, que me agride e me tortura? A loucura do outro reafirma minha sanidade. Sou o que sou porque não sou como você. Quanto mais me diferencio de você, mais reforço minha identidade, nem que seja aos tapas e aos socos. Assim, como Dr. Bacamarte, talvez a loucura esteja mesmo em todos e a todo momento. Porque não consigo aceitar o outro, o diferente. Porque não consigo me comunicar com ele. Porque viro as costas para uma linguagem desconhecida e indecifrável. Porque estou no meu país, na minha casta, no meu grupo, e fecho as fronteiras para quem não segue os costumes e as regras do meu território. Carimbo no passaporte invisível deste outro: é tolo. É ignorante. É arrogante. É sovina. É perdulário. É louco. Seja qual for o critério, trancafio este outro, que penso conhecer (mas não conheceremos de fato jamais) na Casa Verde. Viro as costas, para amigo. Para o amante. Para o namorado. E assim se descontroem relacionamentos, pela intolerância que se reveste de normalidade. Como diz um lindo ditado árabe: gente é como tapete. Precisa ser sacudida de vez em quando. Mas ao virar as costas para o que não gosto, evito o desafio de navegar por outras fronteiras de seres diferentes. Fujo de ser sacudida. E perco, assim, um pouco da pouca humanidade que me resta. Ethel Scliar