Na semana em que a gente encerra os comentários sobre “O Alienista”, gostaria de expor alguns comentários que podem ajudar-nos a entender não apenas a obra de Machado de Assis – que é bem complexa, sobretudo para a época em que foi produzida –, mas também o século em que ele viveu e no qual se tornou referência pelo menos para nós, brasileiros.
Machado viveu no século XIX, posterior ao no qual se estruturou completamente o romance moderno. O Século XVIII não à toa é chamado de “o Século das Luzes”. Em épocas anteriores, fazia-se teatro – Os gregos se apresentavam em anfiteatros e a Comédia Del Arte nasceu na Itália. –, poesia, ópera, mas estruturalmente o romance moderno ainda não existia. Não como ele existe hoje em praticamente todos os países. Aliás, a principal característica desse gênero é a narrativa em terceira pessoa.
Ao lado de grandes nomes da literatura mundial, foi Machado de Assis quem primeiro entendeu, no Brasil, a essência do romance moderno. E ele deixou-nos um trabalho impecável nesse campo, que vai desde a novela cujos comentários foram o assunto das últimas semanas, até obras ainda maiores, mais substanciosas, como Quincas Borba, por exemplo. Um primor de texto.
Machado penetrou na alma brasileira. Dissecou-a. Às vezes com fina ironia, como é o caso do “Alienista”, às vezes com sagacidade, mas sempre com maestria. Ele inspirou os romancistas que o seguiram. Todos, alguns mais, alguns menos, tentaram se inspirar em seus passos geniais. É claro, cada um deles buscando manter sua “identidade” como autor.
A obra de Jorge Amado tem muito do espírito de Machado. Não apenas nos romances de cunho político, como os constantes de “Subterrâneos da Liberdade”, mas também naqueles onde Amado enaltece a figura feminina em obras que ganharam fama mundo afora, como Gabriela Cravo e Canela. Ou então quando ele investia sobre o lado mais caricato e irônico de sua obra e da alma brasileira, como fez com “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, um primor de novela de costumes, tendo como pano de fundo um bêbado baiano. E divinamente representada na TV pelo mestre Paulo Gracindo, num brilhante especial produzido pela Rede Globo.
“O Alienista” tem a virtude de reunir o melhor da narrativa praticamente num texto resumido: “A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico em clínica.” Curto, seco e direto. Eis a essência da obra machadiana. Clara, concisa e fácil de entender, esta sua proposta em toda obra.
Por tudo isso, vai ser muito bom saltarmos de Machado para Virginia Woolf (na bela foto deste texto). Essa “Proust inglesa” como era conhecida, tornou-se uma referência mundial, mas mais recente, pois parte de sua vida foi vivida no Século XX, o que aconteceu também no plano intelectual. Pena ter dado cabo à vida quando ainda podia produzir muito. Somos todos os pouco loucos, afinal de contas, teria dito Simão Bacamarte acerca disso.