Me reporto a um debate que tive recentemente com os alunos, sobre os livros de auto-ajuda, por entender que eles são um ótimo referencial para ilustrar a questão da importância de se manter a discussão pautada por alicerces que sejam sempre para-além do eu, inclusive em termos das implicações da literatura no discurso.

Uma das alunas defendia a idéia de que os livros de auto-ajuda, em sua leitura, tinham um papel importante, por ajudar as pessoas a “livrarem-se” de seus problemas. E a discussão adentrou outros símbolos, desembocando no tópico dos parâmetros que condicionam estabelecer se um livro é uma obra de arte ou não.

O ser humano encontrou na idéia de “civilização” uma possibilidade de controlar a agressividade dos indivíduos. Para o convívio coletivo é fundamental um tipo de sacrifício, que Freud nos apresenta com a idéia de “Mal-Estar”. Seria uma espécie de sentimento de angústia frente ao inevitável caráter do conflito. Ouvir o outro, os outros, pressupõe que se abstenha um pouco dos próprios prazeres…

Nesse sentido, coloquei para a aluna que um dos problemas da chamada literatura de auto-ajuda é o fato de que ela condiciona uma roupagem equivocada para o sujeito: a de que seu problema se restringe ao que ele dá conta sozinho. Em alguns casos isolados, até funciona. Mas analisar os casos isolados seria contraditório com a própria proposta de enxergar o coletivo, objeto que impregna a literatura como parte do processo dito “civilizado”.

Portanto, um primeiro ponto passa a ser considerar que, coletivamente, uma das implicações da ideologia da auto-ajuda é uma crise na capacidade de escutar o outro e o Outro (o coletivo). Salvador Dali nos apresenta, na ilustração, sua leitura do mito de Narciso. Que não se petrifica à toa: Guimarães Rosa diz, apropriadamente, em seu conto “O Espelho”, que “os olhos são a porta do engano”. Isso porque sacou, assim como a psicanálise (da qual muito bebeu o escritor brasileiro, como ele mesmo afirmava), que a tendência do eu é se apaixonar por si mesmo. É o tal “princípio de prazer”.

E é aí que entra a história da obra de arte. O mundo atual, já há algum tempo, e por diversos fatores que não cabe aqui discutir, transformou a obra de arte em objeto de mero prazer individual. As pessoas vão ao cinema para se divertir, penduram quadros nas paredes de sua casa com o intuito de agradar as visitas – o que retorna como reconhecimento de gosto, claro -, assistem peças de teatro para rir e lêem com o intuito de buscar felicidade (como se isso existisse como “porto seguro”). O Mal-Estar, que sustenta a proposta civilizatória, nesse contexto, vai sendo cada vez mais esvaziado (apesar de constitutivo, claro…).

Portanto, me parece ser mais relevante, já que o intuito é “acompanhar as discussões”, que sejam considerados os pontos onde a literatura transcende o mero prazer individual. Não sou partidário daquela máxima que diz que “gosto não se discute”. Penso que se discute sim, por conta de que as formações do juízo representam quadros ideológicos coletivos muitas vezes graves, especialmente no que diz respeito ao valor ético e estético das obras e das idéias. Mas esse é, cada vez mais, um subterfúgio egóico que visa encerrar as discussões. A aluna, em dado momento, tentou se sair com essa: “gosto não se discute”. As pessoas, geralmente, parecem acreditar que o sujeito não se influencia pela estética dos tipos literários, em termos de educação mesmo (exemplos, referências etc). Acham que a escolha de um livro e sua conseqüente leitura são questões de mero gosto, de mero prazer… Essas mesmas pessoas, quando surge um “maluco” homicida ou um problema de ordem moral, culpam a educação, o sistema e por aí vai… Ironia, como Machado diria…

A lingüística tem uma ótima metáfora para o que “vemos”: uma “imagem acústica”. O verdadeiro artista é aquele que escuta o mundo com olhos cuidadosos. Eu diria até mesmo desatentos.. Porque olho atento, como nos mostra Narciso, se apaixona pela própria acústica. Para além do princípio de prazer existe a arte como sublimação. Isso porque, como sacou muito bem o Arnaldo Antunes, “o olho não vê a si mesmo”.

Marcelo Henrique Marques de Souza