Tem gente que atravessa a rua quando vê alguém falando sozinho ou gesticulando muito. Medo de ser agredido? Será? Afinal, perambulam por aí tantos loucos mansos – e parece que os loucos mesmo estão bem abrigados em Brasília, infernizando nossas vidas com taxas, impostos, corrupções e outros desmandos. Ou teríamos medo de ser contagiados pelo vírus da loucura?

Freud explica

Bobagem, sou inteligente, esclarecida, não sou louca não senhor. Sei que a loucura não é contagiosa. O Dr. Bacamarte, com seu positivismo ultrapassado, este sim, poderia achar que a loucura é uma doença, classificável, tratável, curável: uma injeção aqui, outro choque ali- pronto! Tudo resolvido. Teríamos um mundo normal, sem extremos, um mundo do meio – um mundo medíocre. Quase um Admirável Mundo Novo. Porque se a loucura de um lado assusta, de outro atrai, como aqueles mariposas, irresistivelmente arrastadas para a luz, a mesma luz que as leva á morte. Assim, podemos circunscrever a loucura e aprisiona-la dentro dos padrões da racionalidade: a loucura que vem hereditária (pois não diz a Igreja que é proibido casar com alguém da família, ou teremos filhos loucos, como aqueles reis e rainhas e seus filhos alucinados?), a loucura provocada pela destruição dos neurônios pela bebida, por drogas, ou o desequilíbrio que este nosso ambiente provoca. Quem poderia, em sã consciência, dizer que pode agir com normalidade no meio da turba que atravessa o trânsito insano das metrópoles?

Curto circuito neural

Um momento! Se a loucura pode ser associada com a destruição de neurônios, então não poderia haver um vírus da loucura? Não, não estou louca. A matéria publica na revista Mente & Cérebro, de agosto de 2008, investiga este assunto. Alguns vírus, já se sabe, levam à demência. É o caso do vírus da sífilis. Para dizer a verdade, esta suspeita foi levantada em 1896! Há mais de um século e a tancinha aqui não sabia disto. Só que quando Freud se popularizou, esta vertente de investigação foi totalmente abandonada. Em 1973, E. Fuller Torrey, do Stanley Medical Research, retomou o caminho. Mais de 200 estudos realizados de lá para cá apontam que existe um forte co-relação entre várias infecções e doenças mentais. Bem, é verdade que o problema de base continua: definir o que é doença mental, talvez não os casos extremos, mas aqueles fronteiriços. E também a doença mental em grupo, aqueles acessos de loucura coletiva, que arrastam multidões. Seria uma onda de peste, que de vez em quando assola a humanidade? Um dos grandes vilões apontados nos estudos é um tal de T. Gondii, que consegui driblar as defesas do organismo e provocar uma resposta de auto-imunização, levando o próprio organismo a atacar as células do cérebro. Sim, o bichinho é esperto: não enfrenta diretamente os neurônios: “suborna” nossos agentes de defesa, que se voltam contra o próprio corpo. Resultado: os parafusos começam a se soltar… Ou seja: o que se busca, é uma vacina contra a loucura. Para dizer a verdade, não sei se é uma boa idéia. Enquanto não se chega a uma conclusão, fique tranqüilo – não precisa atravessar a rua quando alguém se aproxima assobiando. Ethel Scliar