Como já co-loquei (no sentido de um locar para-além do eu, ou seja, no processo de abstrair para melhor ‘loUcar’), um ponto-chave da leitura do Alienista é atingir a leitura da loucura como estrutura do falante, do humano, pois.
Me interessa aqui, portanto, seguir duas pistas, que articulei em algumas leituras e releituras que fiz hoje.
Estou lendo os Outros Escritos do Lacan, neste momento (aliás, redundância em se tratando de alguém que transita na loucura, porque todo texto efetivamente psicanalítico e/ou literário é de fato “outro”, na medida exata de sua transgressão ao sem-número de cruzamentos híbridos (estéreis) da contemporaneidade). E há ali uma pista, que co-loco aqui entrecruzada com outra, esta do psicanalista e escritor brasileiro MD Magno, sobre a questão da psicose (ou, como ele co-loca, “P Se Cose”).
Ora, se assumimos que a loucura é de fato a norma – o normal -, então como ver, por exemplo, aquelas figuras que são internadas em hospícios, com quadros de violência e de desligamento excessivo das regras, que tanto impressionam? Sigamos a pista de Lacan…
Em uma entrevista voltada a estudantes de filosofia, que questionavam determinadas re-visões propostas pelo pensamento lacaniano a conceitos que eram, até aquele momento, seara exclusiva da filosofia – como a clássica noção de ‘sujeito’, importante por sua ambigüidade semântica, por exemplo -, o teórico francês diz que a função social da doença mental é a ironia (p. 216). Ponto. Pulemos agora para o seguinte.
MD Magno (foto) tem um interessantíssimo seminário, denominado “O Pato Lógico”, título altamente irônico. O ser humano, em sua leitura, é exatamente isso: um patinho, que caiu no conto do saber (do logus). Acha que des-cobriu o que não há sequer como cobrir: o real que falta.
Há alguém, entretanto, que mais que isso: vige numa espécie de hiperversão [HI-(per-versão)], uma certeza de que se arrolhou a falta que a linguagem inscreve, o que gera a postura de uma diferença absoluta e, como tal, anti-est’ética. Trata-se do chamado ‘psicótico’. O psicótico sente que coseu (daí a ironia) definitivamente o deslizamento. É como se existisse, ali, na mentalidade psicótica, uma espécie de costura sem rastro, dado que, aparentemente, não há sofrimento efetivo no psicótico. Nós é que sofremos por ele. A diferença, estatuto do humano, não é vivida pelo psicótico, justamente porque ele veste a tal “diferença absoluta”, o que talvez possa ser acreditar no ego como real efetivo.
Há dois tipos de p(ato) se cose: a paranóia e a esquizofrenia. Magno co-loca da seguinte maneira: o psicótico paranóico acumula grandes massas e o esquizofrênico acumula dispersões de poeira (p. 229). O que isso representa? Que o paranóico seria um colecionador voraz de certezas, de “blocos de pedra”, enquanto que o esquizofrênico seria um colecionador de dispersões, de “poeira densa” (idem). Talvez esteja por aí a pista do fato de que os esquizofrênicos vão mais para os hospícios do que os paranóicos. Como Magno rastreia, no esquizofrênico há o significante como significado, ou seja, não há definição usual. E exatamente por isso ele causa mais espanto. O paranóico, talvez, cause, em tese, mais seguidores (!!!).
Quando Lacan propõe que a função social da doença mental é a ironia, está sendo deveras irônico. Em termos do que seja o “social”, é fundamental manter a ironia, mesmo e apesar de trancafiada. Além disso, o louco como doente mental é uma tremenda ironia. Nós, doentes mentais como os tais, que também pensamos pela mente – que ironica-mente é algo similar ao estado da não-verdade (mente e ira) -, necessitamos da distância segura dos que foram capturados pela “norma” para viver nossa ilusão de plenitude. É preciso sempre um inimigo para a ilusão cotidiana…
É muito pano pra manga, mas o que pretendi aqui foi refletir a questão da normalidade. Não no sentido estatístico, mas no sentido de um significado preposto e des-locado mesmo. O normal é o que segue o padrão. Ora, se o padrão, como sacou Machado, é a loucura, quem sustenta uma anormalidade é justamente o discurso racional e as paranóias sistêmicas dos blocos de pedra conceituais. Ironias do destino, que mais sorri do que sofre com os sofrimentos do concreto…
Marcelo Henrique Marques de Souza


6 comentários
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agosto 9, 2008 às 12:31 pm
Lys
Marcelo, muito interessante essa co-locação feita por Magno. Entre colecionadores de certezas e dispersões, nas biografias que li lá no site do Imagem do Inconsciente, vi vários exemplos que se encaixariam bem nessa idéia.
Como se dá a normalização é realmente algo interessante. Quem é que define o que é normal ? Pensando pelo lado estatístico e matemático, a normalização funciona da seguinte maneira… tira-se uma média de acordo com a maioria. No entanto, um conjunto de pontos normalmente obedece mais ou menos uma distribuição gaussiana. Dessa média determina-se então o sigma, que de forma bem grosseira é determinada pela dispersão na distribuição dos componentes. Em exatas, consideramos então que o normal é, não apenas os pontos que estão de acordo com a média, mas também os que se distanciam dela por até 3 vezes sigmas. Como esse sigma depende da disperção da amostra, quanto mais variada for sua amostra, maior será a tolerância para o que é considerado comportamento normal, e também obviamente, maior será o erro de sua aproximação.
Eu acho a estatística algo apaixonante, mas apenas lembrei disso com seu post… não sei bem o porque 🙂
Enfim, tenha um ótimo final de semana !
Ah ! Amanha teremos sorteio de livro novo por aqui 🙂
Lys
agosto 9, 2008 às 1:58 pm
Marcelo
Realmente, Lys. A estatística é bem interessante, especialmente, como você co-loca, em relação às exatas.
A questão é que em relação a comportamento existem pelo menos três poréns: um é o de que a resposta a qualquer pergunta reflete sempre tendências e intenções. Um enunciado é sempre um jogo retórico. E isso constrói, muitas vezes, o que podemos chamar de “aparências de normalidade” pelo simples fato de existir a crença em algum modismo, por exemplo. O segundo justifica o meu senão no texto: considerar um resultado a média que ilustra o que é normal ignora o fato de que em um grande número de casos as respostas podem ser mentirosas ou interessadas. A coisa é divulgada com status de verdade, o que na grande maioria das vezes gera distorções, como no caso das pesquisas eleitorais, por exemplo (e a mídia, então, se farta de utilizar isso, no intuito de celebrar as candidaturas que lhe são interessantes).
E há, ainda, um terceiro caso: entendendo-se que o meio constrói consensos, torna-se até mesmo anti-ético divulgar normas baseadas em argüições orais, porque isso sustenta, muitas vezes, situações que escondem detalhes políticos e reflexivos fundamentais, que apareceriam, talvez, se a coisa fosse feita de maneira dialética ou mesmo artística.
Nesse sentido, em se tratando de pessoas e de falas, acho importante ouvir cada caso isoladamente. O que se esconde por detrás das aparentes normalidades acaba aparecendo..
A sociologia, então.. usa direto a estatística da fala, para sustentar suas premissas. Gosto quando o discurso põe suas premissas em xeque. É mais legítimo.
Agora, para objetos físicos, numa perspectiva newtoniana, acho realmente um interessante instrumento. Mas aqui cabe uma pergunta: numa perspectiva einsteiniana (ou quântica?), isso não escorrega um pouco?
Beijos e ótima semana pra você também.
agosto 9, 2008 às 3:11 pm
Lys
A perspectiva einsteiniana que você diz é conhecida como física relativística e é uma generalização da física newtoniana (clássica). A física quântica (que vem do quantum) é a física que domina em corpos pequenos (menores ou iguais ao tamanho de um átomo). A física quântica entra como substituta da física clássica quando estamos pensando em escalas de tamanho pequenos. A física clássica funciona muitíssimo bem para objetos com escalas de tamanhos que podemos chamar de nosso mundo paupável. Existe uma idéia de que as partículas são formadas por entidades ainda menores, as cordas, e nesse novo universo das cordas a física quântica de parículas elementares também falha e entramos no mundo da física das cordas… e assim por diante.
Aproveitando a deixa para voltar em algo que li em um comentário (acho que seu) há um tempo atrás questionando a busca por uma teoria universal, como você pode ver, não existe nenhuma teoria unificada que explique todos os casos. E quando um físico diz que busca uma teoria universal que explique tudo… não é bem o que parece ser. A idéia não é explicar tudo que existe no nosso universo, como as loucuras de cada um por exemplo. A idéia é bem menos pretenciosa do que as pessoas julgam. Ela busca sim encontrar uma única física que junte toda essa bagunça do parágrafo acima e que funcione em todas as escalas de tamanho. Uma única ferramenta para tudo. Não ia ser legal ? Essa seria a famosa teoria da unificação. Pensando em ferramenta, seria mais ou menos como trocar uma faca de margarina por um canivete suiço desses multiusos que tem tudo.
Se a estatistica escorrega na física moderna ? De jeito nenhum… a estatística é umas das ferramentas mais importantes para a física moderna. É justamente o contrário disso. Quando você sai do clássico e vai para a física quântica a estatística é absolutamente fundamental. Pense por exemplo nos decaimentos radiativos, na posisção das partículas dentro de um átomo… tudo é estatística. Mesmo quando saímos das partículas e abandonamos a física quântica e vamos para as cordas, supercordas e o que quer que seja, a estatística é fundamental. A física clássica é muito mais determinística enquanto a moderna é fundamentalmente estatística.
Outro exemplo simples é a cosmologia, mais na minha área, que usa e abusa da estatística. Nós astronomos trabalhamos com estatística o tempo todo e é por isso que o mercado financeiro adora contratar físico 🙂
Quanto a usar a estatistica para criar consensos… acho que esse deixa de ser um problema da estatística e sim de quem a interpreta. É como tudo na vida… é sempre possível usar uma ferramenta para o bem e para o mal, para colocar em termos maniqueistas. Assim como a energia nuclear pode ser usada para explodir o mundo, também pode ser utilizada para salvar o mundo de um colapso energético. Há sempre muito mais do que uma vertente… sempre.
A estatística é uma ferramenta ótima sem dúvida nenhuma, mas aqui, assim como na literatura, é necessário refletir sobre os resultados da estatística e não apenas adotá-la sem nenhuma reflexão 🙂
Só para concluir, quando um físico fala da teoria que explica tudo no universo, ele quer dizer que quer encontrar uma física que unifique as leis que regem as forças da natureza que são: gravitacional, eletromagnética (unificação das forças elétricas e magnéticas), nuclear forte e nuclear fraca. As três últimas podem ser unificadas com a Eletrodinâmica quântica, mas não incluem a força gravitacional. Essa unificação seria o suficiente para usar uma única física em todas as escalas. Sacou ? Isso não que dizer que essa teoria que explica tudo (dentro da física) explicaria o porque a segunda guerra mundial existiu, ou porque Machado de Assis escreveu o Alienista 🙂
beijocas
Lys
agosto 9, 2008 às 7:29 pm
Marcelo
Oi, Lys. Obrigado pela aula de física! Com a ressalva de que minha pergunta havia sido ligada exclusivamente aos “corpos físicos”.. Seria pretensão demais da física querer explicar os eventos históricos, não há a menor dúvida. Além disso, vale citar que essas dúvidas surgiram há um bom tempo, quando li o “Uma Breve História do Tempo”, do Stephen Hawkins”. Mas foi há mais de 10 anos e já esqueci bastante coisa. Até porque adentrei em outras ferramentas teóricas..
Mesmo assim, fica mais uma dúvida: aonde se encaixa a tal “teoria do caos” nisso tudo?
Bom, estávamos falando de normatização, e não fiz a comparação à toa. Se eu estiver errado me corrija, mas me parece que no nível sub-atômico há uma tendência ao aleatório, no sentido, por exemplo, da impossibilidade de se calcular a rota do elétron com precisão, dentre outros tantos. Além disso, há o que o Einstein co-loca, de que o observador altera o estatuto do objeto observado no ato de se observar (esse segundo exemplo muito claro pra mim – aliás, nesse caso do Einstein, costumo brincar com os alunos, dizendo que ele des-cobriu algo que a filosofia já havia descoberto há mais de 2000 anos).. Nesses dois casos – e nos similares -, a “normatização” fica, no meu entendimento, extremamente comprometida..
Comparei porque a estatística – e agora passo para as chamadas humanidades – deixa de lado dois elementos inevitáveis e essenciais à observação de qualquer dado: a singularidade e o aleatório. As estatísticas buscam transformar em norma o que é da ordem do ilógico, do singular, do impossível de dar conta matematicamente (ou melhor ainda, deterministicamente). Age como a foto em relação ao que é fotografado: paralisa o que É em movimento.
Quanto ao seu 5o parágrafo, acho que há um problema ali: se “é sempre possível usar uma ferramenta para o Bem e para o Mal”, não é um problema só de quem interpreta, mas também – e principalmente – de quem fabrica a informação. Aqui cabe salientar o tal mito de isenção de que as ciências – no caso as humanas – sempre lançam mão quando há uma discussão ética a respeito do uso das informações. Não existe divulgação de qualquer informação que não tenha um aspecto ético em igual relevância ao elemento proporcional. E não é à toa (ainda me referindo ao tal mito) que o tal mercado financeiro (que não é uma instituição “exata” – com todos os senões sub-atômicos dessa expressão) adora contratar físicos. O barato é criar idéia de isenção mesmo.
Porém, contudo, todavia, entretanto, quando o Jornal Nacional divulga uma estatística ligada ao consumo (pra ficar no exemplo do mercado), procurando criar uma ‘norma de interpretação’, há dois problemas aí: primeiro, não aparecem as intenções do veículo, na medida em que nada se discute a respeito da estética do jornal, ou seja, de como ele constrói legitimidade na cabeça dos expectadores (há dois livros muito interessantes sobre isso, um do Perseu Abramo e outro do Carlos Dorneles). E segundo problema, este inescapável: segundo você mesma, “há sempre muito mais do que uma vertente… sempre”. Por isso, ao criar uma norma, a estatística (volto a repetir, estou me referindo ao uso das humanas) desconsidera completamente isso, o que a torna pendendo sempre a um interesse (que aparece escondido por sob a máscara da isenção). Nesse particular, prefiro os historiadores e escritores, como o Machado, que transitam pela não-linearidade das vertentes 😉
Beijão
agosto 9, 2008 às 10:06 pm
Lys
Bom, então, se sua pergunta estava ligada apenas as medidas palpáveis, podes começar com a física clássica que tem um pouco menos de estatística, ou seja, é mais determinística. Não sei se você entende muito bem o que é a teoria da relatividade proposta por Einstein, mas agora noto que seu comentário mistura várias coisas que certamente você não teve tempo de se aprofundar, mesmo porque não é sua área de atuação e de fato temos poucos livros fáceis de entender nessa área.
Como está meio confuso os conceitos em seu comentário acho por bem explicar de forma simplificada pois não há nenhuma dificuldade no entendimento delas. A teoria da relatividade de Einstein introduz, por exemplo, o conceito de dependência entre espaço e tempo e uma nova formulação da gravitação. A teoria de Einstein cai na física clássica quando definimos limites que simulam a nossa realidade palpável, que é por sinal bastante clássica. Com efeito, num princípio, Einstein nem concordava com a quântica, justamente pelo fato dela ser tão pouco determinística, daí a famosa frase dele: “Deus não joga dados”. Ou seja, se falas de Einstein fales de relatividade. Mecânica quântica é obra de outras pessoas.
A minha dificuldade em entender seus dois últimos comentários é que misturas tantas coisas diferentes como se fossem a mesma coisa. No entanto, depois dessa sua crueldade com o princípio da incerteza de Heisenberg acho que entendi aonde está o problema. Esse princípio não tem nada a ver com Einstein e sim com a Física Quântica. Talvez seja daí que vem sua confusão entre Einstein e Quântica.
Enfim, aconselho você, caso tenha interesse obviamente, a dar uma pesquisada e estudada nos livros de estatística e física pois quando entendê-la melhor certamente irá se surpreender e ver que a mesma, assim como um belo poema ou um conto de Machado, também tem um lado apaixonante. Podes começar pelos livros de história da ciência que é bem agradável de ler. Não acharás realmente a resposta para tudo na ciência exata, mas é uma ferramenta divertida e interessante. Mas não vou ficar aqui defendendo a estatística ou a física pois acho a discussão deveras bastante inútil já que seus comentários demonstra uma visão bastante pré-conceituosa para com a pobre.
Não acho de forma alguma que a culpa de usarem uma invenção que será feita para a cura para o câncer para matar um continente inteiro, seja de fato culpa de quem criou a cura para o câncer. Assim como não acho que a culpa da destruição de Hiroshima seja do Einstein… perá lá com isso tudo não é não ? Vamos e venhamos… desse jeito a humanidade se paralisa pois gente atenta para usar tudo o que se cria para o mal temos de monte nesse mundo. E nesse contexto maniqueista, o que seria o mal de uns senão o bem de outros ?
Já percebi que você têm sempre uma posição bastante defensiva com a ciência. Postura que já vi em alguns de meus colegas para com as humanas e que combato sempre que tenho oportunidade. Sempre achei isso mas nunca ficou tão claro como agora quando colocaste para seus alunos a frase:”ele des-cobriu algo que a filosofia já havia descoberto há mais de 2000 anos”. Você pode até estar certo dentro da limitação de suas idéias sobre o tema mas isso é factualmente equivocado. Visto que ninguém descobriu o princípio de incerteza de Heisenberg há 2000 anos atrás. Afinal de contas, nesse princípio, o observador interfere de modo relevante com o objeto observado APENAS quando se tratam de partículas sub-atômicas.
Usaste uma frase de efeito porém imprecisa. É importante conhecer de fato o que se critica e tenho certeza que os filósofos que você lê e cita lhe dariam o mesmo conselho. Nesse ponto fica a lição de humildade de que não podemos dominar todas as áreas do conhecimento em uma única vida.
De qualquer forma, acho esses comentários comparativos absolutamente desnecessários e de uma arrogância até mesmo maior do que a dos físicos de partículas que querem explicar tudo com uma simples equação. Combato essa postura quando a escuto de meus colegas. Acho a filosofia fantástica, a literatura ídem, a história mais ainda já que seria minha segunda opção de carreira, escritores ? Amo eles e sou fã de vários… mas isso não desmerece em absoluto a física, a química e a matemática. Temos coisas geniais nessas áreas e se abrires seu coração para elas, assim como a maioria dos grandes pensadores fazem, poderás tirar melhor uso de todas e certamente ampliará seu campo de visão.
Por discordar desse tipo de postura que iniciaste aqui com esse comentário, encerro por aqui essa discussão pois essas rixas não são enriquecedoras.
Bom domingo para você e seguimos adiante com outras questões e reflexões pois essa de comparações, para mim, já dei por encerrada, pois não tenho pretenção nenhuma de antagonizar coisas que amo, respeito e admiro tanto que são a filosofia e as ciências humanas.
Lys
PS: Desmisturando mais um conceito: Se você quiser saber sobre a teoria do caos, tem a ver com um sistema de equações acopladas na qual uma pequena variação nos parâmetros de entrada produzem soluções completamente diferentes. Não tem a ver diretamente com o Einstein ou com a física quântica. É importante evitar a introdução de conceitos desnecessários na conversa para não criarmos nós mesmos o caos de forma que esqueçamos o objetivo da discussão pois assim não chegaremos a um denominador comum :).
agosto 9, 2008 às 11:40 pm
Marcelo
Bom, Lys, já que você levou a coisa pra outro lado, cabem apenas alguns esclarecimentos.
Primeiro de tudo, vale colocar que houve falha na sua leitura, quando fala de “culpa”.. Aonde eu falo de culpa?? O que eu coloquei – e endosso – é que existe uma tendência (que aparece nítida no seu penúltimo comentário), de criar uma capa de isenção para a ciência – capa essa que nem a ciência, nem a filosofia e muito menos a literatura têm (aliás, esta última nem pleiteia isso, enfim…). Portanto, acho que este ponto está esclarecido.
Segundo, minha posição não é defensiva, muito pelo contrário: análise de texto, de linguagem, de enunciados.. enfim, debate, é sempre ataque. Ataque não com um sentido “ruim”, mas com o sentido de confrontar os argumentos. Ataque ao texto, sempre com respeito, que é o que interessa, claro.
Entendo que pareça a você uma “mistura” determinados enunciados que produzo, por conta de que geralmente o texto segue uma lógica cartesiana que não é a da “estrutura”, como se propõe na semiologia da linguagem, por exemplo. Nesse sentido, vale compreender determinados termos como “arrogância” e “pré-conceitos” (aliás, o texto analítico, que é o que busco, procura justamente sair do conceito, que é rígido como os tais “blocos de pedra”)..
Quanto ao problema da confusão entre Einstein e a mecânica quântica, aceito parte das críticas, com uma ressalva: minha leitura (veja como me protejo da (e não na) isenção) é a de que ambos fazem parte da mesma “estrutura”, ou seja, a de um movimento que demonstra que a análise newtoniana se limitava a referentes do “bom senso” e não ía fundo na coisa. O que ficou disso tudo, me parece ser uma crise em relação a: “o que é exatamente uma unidade?”.. Um corpo, um átomo.. O fundamento está aonde? Isso é uma questão também filosófica..
Não é tanto o que o Heisenberg ou o Einstein dizem que me interessa, mas o que a fala deles conota. Ou seja, há ali a percepção de um ponto que havia sido negligenciado. Mas não pela filosofia (que não é melhor ou pior por isso, mas vale a colocação)…
Vamos comparar dois trechos, como exemplo:
Primeiro, o de Marcelo Gleiser, em seu “A dança do Universo” (pp. 251 – 252):
“O estudo da física moderna pode ser bem frustrante. Quando estudantes são introduzidos pela primeira vez às idéias da teoria da relatividade e da mecânica quântica, sua perplexidade é quase sempre acompanhada por um grande ceticismo. Essas teoria têm algo de absurdo [!!!], algo que parece contradizer nosso bom senso (… ) Eis aqui sete conseqüências “estranhas” da nova física: 1) Um objeto em movimento sofre uma contração de seu comprimento na mesma direção em que ele se move; 2) Um relógio em movimento bate mais devagar; 3) massa e energia podem ser convertidas entre si; 4) não podemos determinar se os constituintes fundamentais da matéria são ondas ou partículas, a famosa “dualidade onda-partícula”; 5) AO OBSERVARMOS UM SISTEMA FÍSICO INFLUENCIAMOS SEU COMPORTAMENTO; NÃO EXISTE MAIS UMA SEPARAÇÃO CLARA ENTRE OBSERVADOR E OBSERVADO (…)”. E por aí vai..
Agora, o segundo texto, do filósofo Anaxímenes de Mileto (585 a.C. – 528 a.C.), retirado do compêndio de Gerd Bornheim (“Os filósofos pré-socráticos”, p. 29):
“Quando o ar está igualmente distribuído é invisível; manifesta a sua existência através do frio e do calor, da umidade e do movimento. E ESTÁ SEMPRE EM MOVIMENTO. POIS O QUE MUDA, NÃO PODERIA MUDAR SE NÃO FOSSE MOVIDO”.
Quando se pensa na relação entre estatística e singularidade, o que vem à mente é a relação entre a norma e a unidade. Certo? Pois é.. o que esses movimentos da ciência, todos eles (mecânica quântica, relatividade, caos, incerteza…), vêm demonstrar, é que no que tange ao singular.. a norma não funciona. E do ponto de vista crítico, o que interessa é o singular.
Sou professor e escritor de ciências (humanas), filosofia e literatura, Lys. Mas o que me interessa mesmo é que os alunos reflitam esses sistemas em suas ambigüidades (por que elas existem aos montes, mesmo que as empurremos para debaixo do tapete, sob o pretexto ideológico da isenção – que o próprio Gleiser demonstra saber não existir). Sem proteções, as certezas não se sustentam. Nenhuma delas.
Quanto a ler livros de história da ciência, sugiro que leia o “As Palavras e as Coisas”, do Michel Foucault, o mais bem escrito a respeito do tema, em minha não-isenta opinião.
E como você parece pensar a ciência de uma maneira mais defensiva que eu, realmente é melhor que pulemos esta página, e passemos para outra.
PS: misturando mais uma, só pra constar: como é curioso isso de estabelecer um “sistema” para o caos, não?