Para quem não crê que “O Alienista” possa ser incluído no mundo real, aí vai uma história verídica:
Um amigo, Jairo Régis, infelizmente já falecido, um belo dia submeteu-se a exame médico de rotina logo após uma internação de umas duas semanas em um spa na região serrana do Rio de Janeiro. O médico que leu o resultado dos exames, com ar preocupado, perguntou a ele se conhecia algum neurologista ou neurocirurgião no Rio. Conhecia, mas queria saber o motivo da pergunta.
– Sua hipófise está muito dilatada – disse o médico, ar de velório.
O pobre amigo desceu a serra aos prantos. Jornalista, entrou pela redação de O Globo adentro e pediu aos amigos que, via Roberto Marinho, conseguissem uma consulta dele com Paulo Niemeyer. Uma hora depois estava diante do famoso medico. Este, olhou para o exame e disse que não poderia ter um diagnóstico definitivo somente com ele.
– Vá até a clínica “X” e peça ao meu filho uma tomografia. Não preciso do laudo. Traga as imagens, rápido porque tenho uma festa para ir daqui a pouco.
Jairo correu. Fez o exame e voltou a galope. Entrou pelo consultório adentro quando Niemeyer já colocava o paletó do smoking. Olhou rapidamente para a tomografia, jogou-a sobre a mesa e disse:
– Vá embora. Você não tem nada.
Jairo não entendeu. Afinal, o outro havia dito que se tratava de uma dilatação, uma tumoração. Como podia ser, pois a hipófise estava muito maior do que o natural?
O famoso cirurgião perguntou:
– Você tem pinto grande?
– Não. Tenho o normal.
– Pois então ande com esse resultado na bolsa. No dia em que alguma mulher olhar com vá vontade lá para baixo, tire rápido o exame da pasta, encha o peito e diga: ‘É que você ainda não viu minha hipófise!’.
Lembrei-me dessa história hoje, ao descobrir que o mundo é pequeno. Num exame medico, a médica Sandra Maria Pontes achou que me conhecia. “Você escreve?”, perguntou ela. Expliquei que escrevi durante anos em jornal, mas não fazia mais isso hoje. Foi então que ela disse: “É do Clube do Livro que conheço você. Sou a mãe da Dani Pontes!”
Falei sobre “O Alienista”, do que o livro tratava, ela riu e confessou que, logo depois de formada, queria mandar todo mundo para o analista. Como Simão Bacamarte, também via lógica na história de que todos temos um pouco de loucos. Mas talvez não todos de jogar pedra.
Essas histórias surgem um século após a morte de Machado de Assis. É que eu não poderia passar essa quarta-feira sem falar nele. Sem lembrar o episódio do Jairo Régis e o exame medico. Eu, deitado à mesa e a médica, gentil como ela só, se lembrando de mim pela foto do Clube do Livro.
Mundo pequeno!
E podem crer: Simão Bacamarte teria mandado Paulo Niemeyer para a Casa Verde, com toda a certeza.
Volto a insistir: a novela dele é grandiosa. Brinca com a ficção e homenageia a vida. Mostra que todos, no fundo, têm um pouco de loucos. Pena Simão tenha concluído que…bem, deixemos o final para quem ainda não leu a história.