A primeira coisa que nos chama a atenção ao ler o conto O Alienista do Machado de Assis é a forma com que ele “brinca” com a loucura. Como a Mércia disse no post dela, esse humor ácido de Machado nos faz rir ao identificar em nós mesmo sutis traços de loucura. Afinal, ela está dentro de todos nós🙂

Calma gente… esse não é um texto da Scliar. O post da Ethel semana passada me fez lembrar algo que me inspirou para escrever esse post de hoje e por essa razão, apenas hoje veja bem, tive um acesso de loucura e resolvi brincar um pouco com os estilos🙂.

Conselhos da Vovó:

A loucura é algo fascinante! Mesmo porque acredito que existe apenas uma linha muito estreita e frágil entre o estado de sanidade mental e a loucura, assim como entre a vida e a morte.

Volta e meia fico pensando em quão próximo do estado de loucura estaria eu… uma vez minha bisavó, senhora muito humilde porém sábia, me aconselhou quando ainda era viva, a tomar cuidado com tanto estudo pois eu poderia me encontrar com a loucura. O mesmo repetiu padre Lopes no conto, quando aconselhou Dona Evarista a levar o marido para se distrair um pouco dos estudos no Rio de Janeiro.

Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.

Essas palavras sempre ficaram martelando na minha cabeça pois acredito que por tráz dos ditos populares sempre há um fundo de verdade. Não não, não estou dizendo que estudar a noite inteira para uma prova vai deixar alguém maluco de pedra. O problema esá quando tomamos consciência de nossa profunda insignificância e procurar demais por algum sentido para tudo pode dar nisso. Quanto mais ignorantes somos mais próximos estamos de sermos o centro do universo. Será então que a loucura vem junto com a real consciência de nossa insignificância, inutilidade, vulnerabilidade e impotência como seres humanos ? Ou será ela apenas uma doença patológica como outra qualquer que pode ser tratada com um remédinho ou outro. Certamente no vasto campo da saúde mental há espaço para tudo e mais um pouco e podemos ter sim os dois juntos, mas no post de hoje vou brincar um pouco com esse limite.

Maluca ? Eu ? Nada disso…

Hoje, apenas hoje veja bem, vou considerar que os loucos na verdade são aqueles que um certo dia pararam de se enganar com o fato de que são especiais nesse universo e que tudo na vida tem alguma razão de ser. Os normais, por outro lado, são aqueles que se enganam ao ponto de achar que existe alguma razão para todo esse mundo maluco e que eles são especiais ou podem fazer algo de especial para mudar a história do universo de alguma forma.

Uma coisa é fato nessa hipótese, difícil mesmo é ser maluco e manter o estado de maluques. Ou você acha que é fácil lidar com a indiferença ? Talvez o balanço ideal seja mesmo seguir o conselho do Raulzito, e continuar “Contolando a minha maluques, misturada com minha lucidez“. Mas vamos mudar o rumo da prosa antes que eu, que já falo sozinha, comece a ficar deprimida… e… seguindo o conselho da bisa, melhor não pensar muito nessas coisas pois todo mundo sabe que essa história acaba em eletrochoque ou lobotomía. Sábia vovózinha🙂 Certamente leu Machado de Assis.

O Inconsciente que fala:

Nise da Silveira

Um certo dia estava eu passeando por um museu, não lembro bem o qual, e me deparei com uma exposição de Imagens do Inconsciente. Obviamente não apenas o nome da exposição me chamou a atenção, mas também a complexidade das suas pinturas. Para quem ainda nunca ouviu falar, a idéia de criar um museu de imagens do inconsciente teve origem em um centro psiquiátrico, na ocasião de uma seção de terapia ocupacional. Nise da Silveira (se tiver tempo leia o link pois vale a pena) criou o museu para incluir as obras criadas pelos pacientes com o objetivo de oferecer material para a análise científica para o tratamento psiquiátrico, campos aonde a pintura pode fornecer informações importantíssimas que muitas vezes não podem ser expressas em palavras pelos pacientes. Esse metodo é oferecido como uma alternativa aos tratamentos psiquiátricos violentos, que incluem o eletrochoque, o coma insulínico e a lobotomía.

A lenda da Pororoca - José Alberto de Almeida

Certamente nessa área chegamos a um nível de complexidade extremo e esse tema faz parte do vasto campo da minha ignorância, portanto não posso dizer se o método funciona ou não, mas achei interessante a idéia e mais interessante ainda, o resultado dela. Dando uma volta no site do museu para escrever este post encontrei então a história de alguns dos pacientes, cujas obras estão entre as exposições principais. Infelizmente não consegui ler todos porque ou o site está com problemas ou o linux não comporta esse tipo de site, mas o que li me deixou ainda mais fascinada. Para quem tiver problemas com o site assim como eu tive, tem um arquivinho pdf aqui com a história resumida de vários artistas. Nesse site tem material que não acaba mais e vale a pena conferir pois é um trabalho e tanto. Portanto, deixo vocês nesse domingão com as Imagens do Inconsciente e as reflexões que delas poderão surgir, não apenas com as obras, mas também com a história de seus artistas que são personagens reais de uma história que de fato, poderia ser a história de qualquer um de nós.

A pintura que mostro nesse post foi feita por José Alberto de Almeida que segundo sua biografia é carioca, poeta, comunicativo, andarilho, passa as noites sem dormir caminhando pela cidade. É inteligente, sensível e tem bom coração, mas é pouco pragmático, se perdendo em suas fantasias.

Um beijo a todos e tenham um ótimo domingo !

Lys