(Esse texto me lembra de um outro, que fiz para o blog, onde falava do curioso fato de que o vencedor do último Oscar de melhor ator, Javier Bardem, ganhou um prêmio como protagonista num filme que não tinha protagonista, Onde os Fracos não têm vez)

A Mercia lembrou muito bem a questão do humor em Machado de Assis, em seu último texto. E tive, no último post, um agradável colóquio com a Lys, sobre a questão da “classificação”. Vamos, então, des-locar esses dois eventos para cá, a fim de encadeá-los para novas reticências…

As cartilhas de literatura, aquelas que dividem historicamente os autores em movimentos literários distintos, classificam Machado de Assis da seguinte forma: ele teria uma fase dita “romântica” (onde estaria “amadurecendo” suas idéias) e outra denominada “realista” (onde se definiria pelo ideário realista de sua época). Ora, nada mais falacioso, como podemos refletir.

O semiólogo francês Roland Barthes (1a foto) chama a atenção para um ponto importante. Diz ele o seguinte: “Entendo por literatura não um corpo ou uma sequência de obras, nem mesmo um setor de comércio ou de ensino, mas o grafo complexo das pegadas de uma prática: a prática de escrever. Nela viso, portanto, essencialmente, o texto, isto é, o tecido dos significantes que constitui a obra, porque o texto é o próprio aflorar da língua, e porque é no interior da língua que ela deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo das palavras de que ela é o teatro. (…) As forças de liberdade que residem na literatura não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor que, afinal, é apenas um ‘senhor’ entre outros, nem mesmo do conteúdo doutrinal de sua obra, mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua” (os negritos são meus) (Aula, pp. 16-17).

Quando fala da “língua”, Barthes está pensando justamente nesta como instrumento de poder, ou seja, como sustentáculo das normas ideológicas vigentes, do que Foucault chama de “ordem do discurso”, que seria mais ou menos como uma rede de significação que busca impedir rupturas, transformações e cortes mais drásticos no que se estabelece como “verdade” de uma época.

E qual era a “verdade” da época de Machado? Exatamente o que se classifica como “realismo”, ou seja – ainda segundo as cartilhas: o positivismo, que defendia o fato e a possibilidade efetiva de se construir uma explicação definitiva sobre o mundo (pode se perceber essa tendência inclusive na leitura que Marx faz do texto de Hegel, no que aquele propõe o comunismo como fim da história); o objetivismo, como negação da subjetividade realçada pelos românticos, adeptos do movimento anterior; e uma preocupação freqüente com o presente, com o contemporâneo, em contraposição à preocupação com o passado histórico, também característica dos classificados como românticos.

E por que Barthes propõe a literatura como deslocamento? Justamente por conta de seu caráter assumidamente ficcional. Em mais uma dessas cartilhas, costumam classificar (!) os textos em dois grupos: os textos literários e os não-literários. Curioso: são considerados textos não-literários justamente aqueles que apresentam as características do movimento realista: a notícia de jornal, a bula de remédio, a monografia, o dicionário.. todos tipos de texto pretensamente objetivos, explicativos, definidores e voltados para o presente. Estranho, não?

E além desse exemplo geral, existe o caso do próprio Machado. A Mercia considerou a questão do humor, da ironia, no Machado. Ora, a ironia é exatamente um tipo de estrutura que cria rupturas reflexivas, pois que escondida em sua própria aparição. Toda ironia é uma metáfora, que obriga uma releitura. Portanto, um deslocamento.

Nesse sentido, aqueles que propõem Machado de Assis como um escritor “realista” talvez fossem trancafiados na Casa Verde, mas – e isso me parece fundamental – somente no final do livro, juntos com o próprio alienista. Do ponto de vista do formato, o conto de Machado, considerado conto realista, é muito mais que isso. Trata-se de deslocamento puro, na medida em que o ideal vigente era o “sujeito racional” (com o perdão do contradito). A loucura pode ser tudo, menos pretensamente realista.

O critíco literário argentino Ricardo Piglia (2a foto) diz que “o problema não está tanto em uma obra ser ou não de vanguarda: o fundamental para um escritor é que o público e a crítica sejam de vanguarda” (Formas Breves, p. 76). Se entendermos vanguarda como a inevitável histeria de toda modernidade, inovação incessante de um lado, olhar crítico de outro, podemos sacar o por quê da resposta que dou quando me perguntam “para quem tu escreves?”: “Para ninguém, porque o leitor mesmo está para-além de si-mesmo”.

Machado foi e é um escritor atemporal. Seus personagens e suas tramas são metáforas da condição humana, que é um deslocamento incessante. Não cabe em cartilhas. Ele seria, podemos dizer, um sorriso irônico da literatura, apontado para as certezas trêmulas de sua época. Um texto para além das grades de qualquer classificação.

Marcelo Henrique Marques de Souza