Um dos aspectos interessantes a que O Alienista pode nos levar é à discussão da política e como ela é exercida. Em Itaguaí, nos relata Machado, vereadores e opositores têm discursos diferentes, o que é absolutamente normal em se tratando do discurso político.

Só que a diferença, na verdade, é na aparência. Aqui, repete-se o velho lema de fazer o que nos dizem, mas não o que eles fazem. Observem o livro e respondam: o que acontece quando a oposição assume o poder? Sim, ela passa a se comportar exatamente como a situação, invertendo posições e passando a apoiar o que antes criticava.

Ao lado de ser uma característica, segundo especialistas, do discurso político, a disputa política em Itaguaí nos remete, mais uma vez, à atualidade de Machado. Tirando o non-sense – ou crítica ferina – da Casa Verde, o que aconteceu na cidade do Dr. Bacamarte poderia estar acontecendo em qualquer cidade brasileira. De um lado, temos quem está no poder e não quer perdê-lo. Do outro, quem a ele quer chegar.

O Alienista mostra muito bem a tônica dessa luta e o que acontece quando há a mudança. Quem chega ao poder com um discurso de oposição, o suaviza, adotando ou mantendo parâmetros de quem antes ocupava o posto. Pode-se, aqui, repetir um outro adágio popular: na prática, a teoria é outra.

Em Machado, neste caso, a ficção reflete o real, não só da época em que se passa as peripécias do Dr Bacamarte, mas confirma a atualidade do autor, que nos permite discutir um aspecto da política, olhando os dias de hoje e vendo como é que ele a retratou. A disputa em Itaguaí é idêntica ao que acontece nos milhares de municípios do Brasil.

E, para completar, o conceito que Machado fazia dos políticos, pelos relatos de O Alienista, não é muito diferente do que se tem hoje deles. Mais um ponto para o autor e um fator a mais a confirmar que sua atualidade permanece. E é isso que o transforma em gênio.