Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

Conheci a genialidade de Machado de Assis logo cedo. Ok, não tão cedo assim… afinal, comecei mesmo a me enveredar pela literatura ainda criança com as obras de Monteiro Lobato e as aventuras da Emilia no Sítio do Picapau Amarelo. Como era divertido !!! Machado fez parte de minha adolescencia. Li na escola vários livros do Machado para as aulas de literatura ou vestibular, assim como li também Pessoa e uma série de outros gênios da literatura brasileira e portuguesa. Mas foi com os seus contos que muito mais tarde peguei gosto pela literatura de Machado de Assis.

Comigo nunca teve essa de ler obrigada pois tudo o que vinha pela frente era lido com bom gosto. Como o dinheiro era sempre muito curto em casa, quando uma professora pedia um livro para mim ou para minha irmã, faziamos a festa ! Pois a filosofia em casa era a de que para material escolar o dinheiro nunca faltava. Então o procedimento era sempre esse… lia um livro que sempre me abria as portas para outros quatro ou cinco indicados na contra-capa. O que fazia era incluir um ou outro desses indicados na contra-capa, de forma muito sapeca, dentro da próxima lista de material escolar. Obviamente que eu dizia que tinha sido a professora que havia pedido, mas acho que já fui absolvida desse pecado🙂 . Depois de alguns anos descobri que minha irmã fazia exatamente o mesmo e demos boas risadas por isso. Como depois sempre liamos uma o livro da outra – o que fazemos até hoje🙂 , conseguimos ler muito quando crianças. Com o tempo aprendi a usar as bibliotecas municipais e criar coragem de pedir um livro ou outro emprestado para um amigo ou namorado. O que sempre cuidei com carinho pois sabia que dali poderia sempre vir mais🙂

Lembro que a época em que mais li na minha vida foi no colegial. Estudava no período da manhã e trabalha a noite como patinadora no supermercado Carrefour em São Vicente. Todo mês, parte do meu salário era destinado a compra de livros e passava horas em sebos para fazer o dinheirinho render bastante ! Fazia reforma das capas com papel cartão e colava as folhas com durex quando era preciso e depois carregava meus livros orgulhosa para todos os cantos e entre um intervalo do trabalho e outro sempre abria o livro… chegava do trabalho e lia até 4 da manhã mais ou menos. No meu quarto tinha minha cama, meu guarda-roupa com a porta quebrada e uma pilha de livros que cobria o chão. Essa época foi de fartura literária !

Não tinha ainda nenhuma predileção por nenhum autor específico mas foi nessa época que peguei gosto pelo existencialismo e pelos escritores franceses do pós segunda guerra. Comecei minha paixão por Camus e segui lendo de forma compulsiva todos os outros autores da mesma época. Cheguei até a Simone de Beauvoir que hoje digo ser, no momento, minha autora predileta, assim como Camus já foi um dia. Mas sou de fases e meu autor predileto sempre muda de tempos em tempos.

Durante a faculdade li vários clássicos da literatura mundial. A biblioteca da minha faculdade, apenas com cursos de engenharia e de física, não era muito bem servida e tinha pouca variedade, mas sim, todos os clássicos estavam lá e como não tinha um centavo extra para comprar livros, me contentei com esses e fui lendo um a um até o último ano de faculdade. Também reli muitos livros nessa época.

Acabada a faculdade, entrei para o mestrado em Astronomia e ainda meio perdida mal tinha tempo para ler os artigos específicos, todos em inglês para meu desespero. Não sabia uma palavra em inglês na época e aproveitava as horas do ônibus fretado (pois ia de São Paulo para Santos todos os dias) para ler as toneladas de artigos olhando palavrinha por palavrinha no dicionário. Mas essa era a vida e como nada havia me feito parar, não seria uma língua estranha que me limitaria. Todo meu tempo era dedicado a ler esses malditos artigos que tinha que ler para a minha tese. Deixei de lado a literatura, mas por outro lado, aprendi inglês🙂

Quando começei a namorar com o Edu, já fazia alguns meses que não sabia o que era pegar em um livro de literatura… um dia, não lembro muito bem que data foi, ele chegou com um pacote de presente para mim. Abri ansiosa e dentro encontrei dois livros enormes com uma capa dura linda ! Acho que um dos primeiros que tive assim novinho em folha e tão lindo, tirando a coleção do Lobato é claro🙂 ! Quase chorei de emoção e fiquei contemplando a capa por horas ! Clarinha… beginha… sem nenhum rasguinho e nem rabisco. Imediatamente peguei um lapis e escrevi meu nome e a data na contra capa pois faço isso com todos meus livros. Era uma coletânea de contos do Machado de Assis ! E ele escolheu a dedo pois, como eram contos eu poderia ler bem devagar somente quando sobrasse tempo durante as minhas viagens no fretado. Vocês não imaginam a alegria que isso me trouxe… no ônibus fretado não havia mais lugar para os artigos e a cada viagem lia um conto. E o Edu ? Oras… todo mundo sabe que casei com ele🙂 Se Machado teve algo que ver com isso ainda não sei, mas certamente nesse dia descobrir que ele sabia muito bem como me fazer extremamente feliz ! Tudo bem que depois de casada ele me confessou que me presenteava com tantos livros porque sabia que depois eles viriam todos para a mesma estante🙂

Mas enfim, até então já tinha lido vários livros de Machado, mas devo confessar que foi nessa ocasião que descobri Machado de Assis de verdade. Li o Alienista pela segunda vez nessa ocasião e com olhos um pouco mais maduros do os de uma menina do colégio, dentro de um ônibus fretado, indo de São Paulo até Santos… chegando em Santos ainda não havia terminado e não consegui fazer mais nada além de ler até a última palavra. Foi lindo ! Reli novamente logo em seguida !

Não sou uma apaixonada por Machado de Assis e, apesar de eu mudar meus favoritos de quando em quando, ele nunca fez parte do grupo. No entanto, Machado é de fato um gênio e o Alienista é uma obra prima da literatura brasileira que deve ser lido por todos, seja por obrigação na escola, seja por mera curiosidade ou prazer. Fico feliz de podermos discutir esse conto aqui no Clube do Livro ! Isso me dará a oportunidade de ler novamente, pela quarta vez, o mesmo conto. Um pouco mais velha e menos duranga. Meu livro lindo de capa dura que ganhei do Edu já está nas minhas mãos novamente.

Livro sugerido, escolhido por votação… o próximo passo é ir para a livraria e pegar um exemplar, caso ainda não tenha em casa. O que nos salta aos olhos nesse momento é o descaso literário mundial em que vivemos. Como o Álvaro disse no post dele, mesmo na ocasião do centenário da morte do Machado, não é uma tarefa fácil encontrar um livro deste grande escritor nas livrarias brasileiras. O Lino comentou ser um problema de desvalorização nacional… pois eu amplio essa idéia e coloco que a literatura hoje em dia passa por um problema sério de descaso mundial, independente da nacionalidade do leitor e escritor.

Assim como é difícil encontrar livros do Machado de Assis nas livrarias mais populares do Brasil, existem apenas umas pequenas prateleiras nas livrarias inglesas dedicadas a obras de Chales Dickens ou Virginia Woolf. Hoje em dia, não preciso mais incluir meus livros na lista do material do colégio e muito menos economizar com livros, portanto, toda vez que passo por uma livraria aproveito para matar minha demanda reprimida de toda uma vida e sempre saio carregada. Cada lugar do planeta que vou, acabo entrando em uma livraria e vejo que em todo lugar que já fui, poucas livrarias possuem bancas com todos os livros clássicos de um autor reconhecido por uma ocasião especial ou outra. Para não ser injusta, apenas vi isso na WaterStone em Londres. O fato é que, o mesmo que acontece no Brasil, vejo que acontece na Inglaterra, na França e em qualquer lugar do planeta. O que encontramos nas livrarias são apenas literatura feita para vender em forma de best-sellers e que exigem pouca reflexão. Para os clássicos sobra uma prateleira no canto da livraria, cujo espaço varia de uma para outra, chegando ao ponto de ser zero em alguns casos mais críticos.

É realmente triste ver o descaso que acontece mundialmente com os grandes nomes da literatura e vejo que o mesmo se passa com a música.

Agora me diz aonde está o problema ? Falta de dinheiro para comprar livros ? Não acho que esse seja o motivo, afinal, isso nunca me limitou a ler livros bons… muito pelo contrário pois nas bibliotecas municipais o que mais tem é clássico da literatura e dá para ler de graça.

Será que a humanidade tende ao superficial ? Ou será que essa é apenas uma fase de descrença total e absoluta na cultura, afinal, o que importa mesmo é ganhar dinheiro, ter carro importado e telefone celular ?

Será que esse descaso com a literatura é apenas uma consequência da era digital em que vivemos ? O fato é que quando eu era criança legal mesmo era ler Monteiro Lobato ! Hoje em dia ler é muito difícil… mais fácil é ligar a TV e ter toda a história mastigadinha na sua frente.

Bom… mas deixa eu parar por aqui pois caso contrário corro o risco de ser mandada para a Casa Verde.

Uma ótima semana para todos e até semana que vem !

Lys