Enquanto professor de literatura, sou suspeito para falar de Machado de Assis. Exímio freqüentador da ironia, ele criava personagens-metáforas que figuravam quase que como chacotas aos ideais que buscava criticar. Foi assim com Quincas Borba, personagem que aparece em dois de seus romances – o que leva seu próprio nome (Quincas Borba ) e o Memórias Póstumas de Brás Cubas -, e também o foi com nosso já familiar Simão Bacamarte. E essa estratégia estética é uma daquelas que distingue os grandes escritores dos que não o são.

E qual é o pano de fundo do Alienista, na minha leitura? Assim como com Brás Cubas, Machado ironizava exatamente os ideais científicos e filosóficos da época, especialmente o determinismo e o positivismo, com o doutor Bacamarte. E como esses mitos ainda freqüentam o imaginário ocidental até hoje, vale apostar numa reflexão conjunta.

A loucura é o álibi que Machado utiliza para chamar a atenção para as bobeiras do positivismo, para toda a mitologia da razão, que já há algum tempo, desde o Renascimento, se espalhava inevitavelmente pelo discurso ocidental. Esse movimento crítico começa com o poeta Charles Baudelaire, que buscava, em seus poemas e ensaios, denunciar as contradições do discurso racionalista da modernidade, que se pretendia única via possível – e segura – de leitura da realidade. E podemos destacar duas outras obras, que seguem a mesma lógica do Alienista, qual seja, a de refletir a mitologia de uma dada normalidade (a razão), pela via da tematização da loucura. São elas o Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, e o História da Loucura, do filósofo francês Michel Foucault.

Na primeira, escrita no ano de 1509, o erudito Erasmo representa o irônico monólogo da loucura, que, zombando do saber e de sua inutilidade, afirma: “Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. (…) E essas caducas cabeças, (…) faço-as beber a grandes goles a água do Esquecimento. E é assim que dissipam insensivelmente as suas mágoas e recuperam a juventude” (p. 23).

Já Foucault nos aponta, em seu trabalho de 1961, exatamente o que Machado ilustra em seu conto de 1882: a obsessão pela classificação. Mas é só isso? Não, por conta de que Foucault denuncia, em toda a sua vasta obra, o quanto a classificação protagonizada pela ciência age enquanto uma interdição. O texto da contra-capa, de autor que não é nomeado, diz bem a questão: “Não é, de modo algum, a Medicina quem definiu os limites entre a razão e a loucura; no entanto, desde o século XIX, foram os médicos que se encarregaram de vigiar a fronteira e montar guarda na sua cancela. Afixaram nela o rótulo de “doença mental”, indicação que vale como interdição…”.

Fronteiras, entretanto – como nos mostra o personagem Bacamarte -, são extremamente tênues. O significado, as definições e classificações, sempre flutuam no decorrer do tempo. A “verdade” é permeável aos interesses, sempre. Há sempre uma interdição, e isso é o que fica, no que me tange, enquanto reflexão da angústia do dr. Simão. A interdição da vez era – e, em certo âmbito, ainda o é – a da razão. “Não é racional? Então não serve!”… Ora, estão aí os simbolistas, surrealistas, poetas, estruturalistas, ensaístas, psicanalistas e os grandes escritores, como Machado, para conotar o contrário (não é um problema de “provar”, deixa essa pretensão para os racionalistas..).

O dicionário nos indica sua guarita: louco: “1. Que perdeu a razão; doido, maluco. 2. Contrário à razão; insensato”. Ora.. Razão.. E se nunca a tivemos? E se o problema é de um eterno deslizamento dos significantes, como coloca Lacan? Aí, senhores Bacamartes da vida, sobra a poesia e o fragmento, sobra a ironia de Machado, a metáfora de Borges, a sagacidade de Foucault e Erasmo.. Sobra o que somos.. A sombra eterna do que dizemos; sobras de pensamentos; Obras inacabadas… Reticências prévias.. A loucura-em-si, ora… Para bom leitor, meio devaneio é letra.

Marcelo Henrique Marques de Souza